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Capítulo 2 Tecnologia, população e crescimento

Como surgem as inovações tecnológicas e como estas sustentam o crescimento dos padrões de vida

  • Modelos econômicos ajudam a explicar a Revolução Industrial e por que esta começou na Grã-Bretanha.
  • Salários, custo de maquinário e outros preços importam quando as pessoas tomam decisões econômicas.
  • Em uma economia capitalista, a inovação gera recompensas temporárias para o inovador, o que incentiva a busca por novas melhorias tecnológicas capazes de reduzir custos.
  • Depois que a inovação se difunde na economia, estas recompensas são destruídas pela competição.
  • A população, a produtividade do trabalho e os padrões de vida podem interagir entre si para produzir um círculo vicioso de estagnação econômica.
  • A revolução tecnológica permanente associada ao capitalismo permitiu que alguns países passassem a ter um crescimento sustentado dos padrões de vida.

Em 1845, uma doença misteriosa apareceu pela primeira vez na Irlanda, fazendo com que as batatas apodrecessem no solo: quando ficava claro que a planta estava infectada, já era tarde demais. A “praga da batata”, como ficou conhecida, devastou o fornecimento de alimentos na Irlanda pelo resto da década. A fome espalhou-se. Quando a Grande Fome Irlandesa acabou, de uma população inicial de 8,5 milhões de pessoas, cerca de 1 milhão havia morrido. Em termos percentuais, isso equivale à mortalidade da Alemanha ao perder a Segunda Guerra Mundial.

A Grande Fome Irlandesa gerou um esforço de socorro em todo o mundo. Entre os doadores de dinheiro, havia libertos da escravidão no Caribe, detentos da prisão Sing Sing em Nova York, bengalis (naturais da região de Bengala, na Índia) ricos e pobres, bem como indígenas americanos Choctaw além de celebridades como o sultão otomano Abdulmecid e o papa Pio IX. Naquela época, assim como hoje em dia, pessoas comuns se solidarizaram com os que sofriam e agiram para ajudá-los.

Todavia, muitos economistas foram insensíveis. Um dos mais conhecidos, Nassau Senior, opôs-se veementemente à campanha de combate à fome do governo britânico. Um colega da Universidade de Oxford, horrorizado, reportou que Senior teria dito que que “temia que a fome de 1848 na Irlanda não mataria mais que 1 milhão de pessoas, o que dificilmente seria de grande serventia.”

As posições de Senior eram moralmente repulsivas, mas não refletiam um desejo genocida de ver homens e mulheres irlandeses morrerem. Eram, na verdade, consequência de uma das doutrinas econômicas mais influentes no início do século XIX: o malthusianismo, corpus teórico desenvolvido pelo clérigo inglês Thomas Robert Malthus em seu Ensaio sobre o Princípio da População, publicado pela primeira vez em 1798.1

Malthus defendia que um aumento constante da renda per capita seria impossível. Pela sua lógica, mesmo que novas tecnologias aumentassem a produtividade do trabalho, assim que as pessoas percebessem o aumento da renda, elas teriam ainda mais filhos. O crescimento populacional continuaria até que os padrões de vida caíssem ao nível de subsistência, quando seria interrompido. O círculo vicioso de pobreza de Malthus foi amplamente aceito como inevitável.

Há evidências de que os administradores coloniais vitorianos acreditavam que a fome era a resposta da natureza para a reprodução excessiva. Mike Davis argumenta que suas ações causaram um extermínio em massa, evitável e sem precedentes, a que ele chama de “genocídio cultural”.2

A teoria dava uma explicação sobre o mundo em que Malthus viveu, no qual os rendimentos podiam flutuar de ano a ano até ou mesmo de século a século, mas não tendiam a crescer. Esse tinha sido o caso em muitos países por, pelo menos, setecentos anos antes de Malthus publicar seu ensaio, como vemos na Figura 1.1a.

Ao contrário de Adam Smith, cujo livro A Riqueza das Nações havia surgido apenas 22 anos antes, Malthus não apresentava uma visão otimista do progresso econômico — ao menos no que se referia a agricultores e trabalhadores comuns. No longo prazo, mesmo que a tecnologia avançasse, a grande maioria das pessoas obteria, em seus empregos ou em suas fazendas, apenas o suficiente para se manter viva e nada mais.

Revolução Industrial
Onda de avanços tecnológicos e mudanças organizacionais iniciada na Grã-Bretanha, no século XVIII, que transformou uma economia agrária e artesanal em uma economia industrial e comercial.

No entanto, durante a vida de Malthus, algo maior estava em curso: transformações que logo permitiriam que a Grã-Bretanha escapasse do círculo vicioso de crescimento populacional e estagnação da renda descrito pelo autor. A mudança que livrou a Grã-Bretanha da armadilha de Malthus, e que faria o mesmo para muitos outros países nos cem anos seguintes, é conhecida como a Revolução Industrial — um extraordinário florescimento de invenções que permitiram obter o mesmo nível de produção com menos trabalho.

Na indústria têxtil, as invenções mais famosas ocorreram na fiação (tradicionalmente feita por mulheres, as fiandeiras) e na tecelagem (em geral feita por homens). Em 1733, John Kay inventou a lançadeira volante, máquina que aumentou muito a quantidade que um tecelão poderia produzir em uma hora. Essa inovação fez com que a demanda por fios para tecelagem aumentasse a tal ponto que as fiandeiras tiveram dificuldade de produzir o suficiente com as tecnologias de fiação da época. A fiandeira mecânica conhecida como “spinning Jenny”, inventada por James Hargreaves e introduzida em 1764, foi uma resposta a esse problema.

tecnologias de uso geral
Avanços tecnológicos que podem ser aplicados em muitos setores e que geram outras inovações. A tecnologia da informação e comunicação (TIC) e a eletricidade são dois exemplos comuns.

O avanço tecnológico em outras áreas foi igualmente impactante. O motor a vapor de James Watt, introduzido na mesma época em que Adam Smith publicava A Riqueza das Nações, é um exemplo típico. Esse tipo de motor foi melhorando gradualmente ao longo de muito tempo e passou a ser utilizado em toda a economia: não apenas na mineração, em que o primeiro motor a vapor foi usado para alimentar bombas de água, mas também na indústria têxtil, nas manufaturas, nas ferrovias e nos navios a vapor. Esses motores são um exemplo do que é denominado inovação ou tecnologia de uso geral. Nas últimas décadas, o exemplo mais óbvio destas tecnologias é o computador.

O carvão mineral teve papel central na Revolução Industrial, e a Grã-Bretanha o tinha em abundância. Antes da Revolução Industrial, a maior parte da energia utilizada na economia era produzida essencialmente por plantas comestíveis, que convertiam a luz solar em alimento para animais e pessoas, ou por árvores cuja madeira podia ser queimada ou transformada em carvão vegetal. Ao passarem a utilizar carvão mineral, os seres humanos foram capazes de explorar uma vasta reserva de um recurso que é, na verdade, energia solar armazenada. O impacto ambiental da queima de combustíveis fósseis tem sido o custo dessa mudança, como foi mostrado no capítulo 1 e voltará a ser visto no capítulo 20.

Essas invenções, associadas a outras inovações da Revolução Industrial, quebraram o círculo vicioso de Malthus. Os avanços tecnológicos e o uso crescente de recursos não renováveis elevaram a quantidade que uma pessoa poderia produzir em determinado período de tempo (isto é, a produtividade), o que, por sua vez, permitiu que as rendas aumentassem inclusive quando a população crescia. Se a tecnologia continuasse avançando rápido o suficiente, poderia ultrapassar o crescimento populacional causado pelo aumento da renda. Assim, os padrões de vida poderiam melhorar. No futuro, as pessoas prefeririam ter famílias menores, mesmo quando ganhassem suficiente para sustentar muitos filhos, como ocorreu na Grã-Bretanha e, mais tarde, em muitas partes do mundo.

Figura 2.1 Salários reais ao longo de sete séculos: salários dos artesãos (trabalhadores qualificados) em Londres (1264–2001) e população da Grã-Bretanha.
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Figura 2.1 Salários reais ao longo de sete séculos: salários dos artesãos (trabalhadores qualificados) em Londres e população da Grã-Bretanha (1264–2001).

ALLEN, Robert C. The Great Divergence in European Wages and Prices from the Middle Ages to the First World War. In: Explorations in Economic History, 38, 4, p. 411–447, 2001.; BROADBERRY, S. et al. British Economic Growth, 1270–1870. Cambridge University Press, 2015.

índice
Medida que compara a quantidade de algo em um período de tempo à quantidade da mesma coisa em um período de tempo diferente, chamado de “período de referência” ou “período-base”. É comum determinar que o índice assume o valor de 100 no período de referência.
salário real
É o salário nominal após ser ajustado para considerar as mudanças nos preços entre diferentes períodos de tempo. O salário real mede a quantidade de bens e serviços que o trabalhador pode comprar. Ver também: salário nominal.

A Figura 2.1 mostra um índice de salário real médio anual (isto é, o salário, em termos monetários, corrigido pelas variações nos preços ano a ano) dos artesãos qualificados de Londres entre 1264 e 2001, paralelamente à população da Grã-Bretanha ao longo daquele período. O padrão de vida foi refém da lógica malthusiana durante um longo período, seguido por outro, após 1830, quando aumentou significativamente. Você pode ver que, na época, tanto o salário real médio como a população estavam aumentando.

Índice de salário real

O termo índice refere-se à medida do valor de uma quantidade em relação ao seu valor em algum outro momento (o período de referência), geralmente normalizado para 100.

O termo real significa que o salário em termos monetários (digamos, seis shillings por hora, na época) em cada ano foi ajustado para levar em consideração as variações dos preços ao longo do tempo. O resultado representa o real poder de compra do dinheiro que os trabalhadores ganhavam.

Nesse caso, o ano de referência é 1850, mas a curva teria a mesma forma se qualquer outro ano tivesse sido selecionado: estaria posicionada mais acima ou mais baixo, mas ainda se pareceria com nosso conhecido taco de hóquei.

Questão 2.1 Selecione a(s) resposta(s) correta(s)

A Figura 2.1 mostra um índice de salários reais médios dos trabalhadores qualificados em Londres entre 1264 e 2001. O que podemos concluir a partir deste gráfico?

  • Trabalhadores qualificados recebiam cerca de £100 em 1408.
  • O salário médio em 1850 era quase o mesmo que em 1408 em termos nominais (libras).
  • O salário real médio era mais ou menos constante entre 1264 e 1850.
  • O salário real médio aumentou cerca de 600% entre 1850 e 2001.
  • O gráfico representa um índice de salários reais. O índice é de aproximadamente 100 em 1408, mas isso não nos diz qual era o salário monetário.
  • Os salários apresentados são reais; então, são ajustados para considerar as variações de preços.
  • Embora o gráfico pareça razoavelmente constante entre 1264 e 1850 se comparado com o rápido aumento visto a partir de 1850, o salário real médio quase dobrou e então se reduziu à metade novamente entre 1264 e 1600 (veja a escala utilizada no eixo vertical).
  • Em 1850, o índice de salário real era de aproximadamente 100. Em 2001, o índice havia aumentado cerca de seis vezes esse valor, chegando a mais de 700.

Por que a fiandeira spinning jenny , o motor a vapor e uma série de outras invenções surgiram na Grã-Bretanha e se espalharam por sua economia precisamente naquele momento? Essa é uma das perguntas mais importantes da história econômica, e os historiadores continuam a discuti-la.

Neste capítulo, analisaremos uma explicação de como essas inovações tecnológicas aconteceram, e da razão pela qual surgiram apenas na Grã-Bretanha e durante o século XVIII. Também exploraremos o porquê de ser tão difícil superar a longa parte plana do taco de hóquei na Figura 2.1, não somente para a Grã-Bretanha, mas também para todo o mundo nos duzentos anos seguintes. Faremos isso por meio da elaboração de modelos: representações simplificadas que nos ajudam a entender o que está acontecendo ao destacar o que é mais importante. Os modelos ajudarão a explicar tanto o ponto de inflexão no taco de hóquei quanto seu longo e plano cabo.

2.1 Economistas, historiadores e a Revolução Industrial

Por que a Revolução Industrial teve início no século XVIII, em uma ilha ao largo da Europa continental?

As próximas seções deste capítulo apresentam um modelo para o aumento repentino e dramático nos padrões de vida iniciado na Grã-Bretanha do século XVIII. Baseado nos argumentos de Robert Allen, historiador econômico, esse modelo atribui um papel central a duas características da economia britânica na época. Segundo ele, o custo relativamente alto da mão de obra, aliado ao baixo custo das fontes de energia locais, impulsionou as mudanças estruturais da Revolução Industrial.3

O que chamamos de Revolução Industrial foi mais do que apenas o rompimento do ciclo malthusiano: foi uma complexa combinação de transformações intelectuais, tecnológicas, sociais, econômicas e éticas — todas elas inter-relacionadas. Historiadores e economistas divergem sobre a importância relativa de cada um desses elementos e debatem explicações para a liderança da Grã-Bretanha, e da Europa em geral, desde que suas revoluções começaram. A explicação de Allen está longe de ser a única.

  • Joel Mokyr, que realizou um extenso trabalho sobre a história da tecnologia, afirma que as reais fontes de mudança tecnológica foram o Iluminismo europeu e a revolução científica que o seguiu. Para Mokyr, aquele período levou ao desenvolvimento de novas formas de transferir e transformar conhecimento científico avançado em orientações práticas e ferramentas para artesãos especializados e engenheiros, que as utilizavam para construir as máquinas da época. Ele afirma que, embora salários e custos de energia possam influenciar a direção tomada pelas inovações tecnológicas, estes estão mais para “volante” do que para “motor” do progresso tecnológico.4
  • David Landes, historiador, enfatiza as características políticas e culturais das nações como um todo (Mokyr, ao contrário, destaca os artesãos e os empreendedores). O autor sugere que os países europeus passaram à frente da China porque o Estado chinês era muito poderoso e sufocou a inovação, e também porque a cultura chinesa da época favorecia a estabilidade em detrimento da mudança.5
  • Gregory Clark, historiador econômico, também atribui a decolagem da Grã-Bretanha à cultura. No entanto, para ele, as chaves do sucesso foram características culturais como o ética de trabalho e a poupança, que eram passadas de geração a geração. O argumento de Clark segue uma longa tradição que inclui o sociólogo Max Weber, para quem os países protestantes do norte da Europa, onde a Revolução Industrial começou, eram particularmente dotados de virtudes associadas ao “espírito do capitalismo”.6
  • Kenneth Pomeranz, historiador, afirma que a superioridade do crescimento europeu após 1800 teve mais a ver com a abundância de carvão na Grã-Bretanha do que com quaisquer diferenças culturais ou institucionais em relação a outros países. Ele também argumenta que o acesso da Grã-Bretanha à produção agrícola de suas colônias no Novo Mundo (especialmente ao açúcar e a seus derivados) alimentou a classe cada vez mais numerosa de trabalhadores industriais, ajudando-os a escapar da armadilha malthusiana.7

Os acadêmicos provavelmente nunca chegarão a um acordo unânime sobre o que causou a Revolução Industrial. Um dos problemas é que essa mudança ocorreu apenas uma vez, o que a torna difícil de ser explicada pelos cientistas sociais. Além disso, a decolagem da Europa provavelmente resultou de uma combinação de fatores científicos, demográficos, políticos, geográficos e militares. A estes, vários estudiosos acrescentam as interações entre a Europa e o resto do mundo, e não somente mudanças no interior da Europa.

Historiadores como Pomeranz tendem a enfatizar as peculiaridades de cada época e lugar. Eles tendem a concluir que a Revolução Industrial aconteceu por causa de uma combinação única de circunstâncias favoráveis (mas podem discordar sobre quais são estas).

Economistas como Allen, por sua vez, tendem a procurar mecanismos gerais que possam explicar o sucesso ou o fracasso econômico ao longo do tempo e do espaço.

Os economistas têm muito a aprender com os historiadores, mas muitas vezes o argumento de um historiador não é preciso o suficiente para ser testado por meio de um modelo (abordagem que iremos usar neste capítulo). Por sua vez, os historiadores podem considerar os modelos econômicos simplistas por ignorarem fatos históricos importantes. Essa tensão criativa é o que torna a história econômica, uma das áreas da economia, tão fascinante.

Se você quer saber o que esses pesquisadores pensam dos trabalhos uns dos outros, procure por “Gregory Clark analisa Joel Mokyr” ou “Robert Allen analisa Gregory Clark”.

Recentemente, historiadores econômicos fizeram progressos na mensuração quantitativa do crescimento econômico de longuíssimo prazo. Seus trabalhos ajudam a elucidar o que de fato aconteceu, tornando mais fácil a reflexão sobre as causas do evento . Uma parte do trabalho dos historiadores econômicos envolve comparar o salário real em diferentes países durante longos períodos de tempo. Para fazê-lo, foi necessário coletar dados sobre salários e preços dos bens consumidos pelos trabalhadores. Uma série ainda mais ambiciosa de projetos calculou o PIB per capita desde a Idade Média.

Nós iremos nos concentrar nas condições econômicas que contribuíram para a decolagem da Grã-Bretanha, mas cada economia que se libertou da armadilha malthusiana tomou uma rota de fuga diferente. As primeiras destas foram influenciadas, em parte, pelo papel dominante da Grã-Bretanha na economia mundial. A Alemanha, por exemplo, não conseguia competir com a Grã-Bretanha nos têxteis, mas o governo e os grandes bancos alemães desempenharam um papel fundamental na formação das indústrias de aço para construção e de outras indústrias pesadas. O Japão, por sua vez, chegou a superar até mesmo a Grã-Bretanha em alguns mercados têxteis asiáticos, beneficiando-se do isolamento e da grande distância (equivalente a algumas semanas de viagem, na época) que o separava dos pioneiros.

O Japão copiou tecnologias e instituições de maneira seletiva, introduzindo o sistema econômico capitalista enquanto conservava várias instituições japonesas tradicionais, inclusive o regime imperial, que persistiria até a derrota do país na Segunda Guerra Mundial.

A Índia e a China apresentam contrastes ainda maiores. Na China, a revolução capitalista foi conduzida pelo Partido Comunista, que promoveu o afastamento da economia centralmente planejada, antítese do capitalismo que o próprio partido havia implementado. Em contrapartida, a Índia é a primeira grande economia da história a ter adotado a democracia, incluindo o sufrágio universal, antes de sua revolução capitalista.

Como vimos no Capítulo 1, a Revolução Industrial não gerou crescimento econômico em todo lugar. Como teve origem na Grã-Bretanha e se propagou lentamente pelo resto do mundo, o processo também implicou um grande aumento da desigualdade de renda entre os países. Ao analisar o crescimento econômico ao redor do mundo nos séculos XIX e XX, David Landes uma vez se perguntou : “por que nós somos tão ricos e eles, tão pobres?”8

“Nós” se refere às ricas sociedades da Europa e da América do Norte, e “eles”, às sociedades mais pobres da África, da Ásia e da América Latina. Landes sugeriu, em tom de brincadeira, que havia basicamente duas respostas para essa pergunta:

Alguns dizem que nós somos tão ricos e eles tão pobres porque nós somos muito bons e eles, muito maus; isto é, nós somos esforçados, inteligentes, capacitados, bem governados, eficazes e produtivos, e eles são o oposto. Outros dizem que nós somos tão ricos e eles tão pobres porque nós somos muito maus, e eles, muito bons: nós somos gananciosos, impiedosos, exploradores e agressivos, enquanto eles são fracos, inocentes, virtuosos, explorados e vulneráveis.

Se você acha que a Revolução Industrial aconteceu na Europa por causa da Reforma Protestante, ou da Renascença, ou da Revolução Científica, ou ainda por causa do desenvolvimento superior de direitos de propriedade ou de políticas de governo favoráveis, então você está no primeiro grupo. Se você acha que ocorreu devido ao colonialismo ou à escravidão, ou ainda por conta de demandas constantes de guerra, então você está no segundo.

Você notará que todas estas são forças não-econômicas que, de acordo com alguns estudiosos, tiveram importantes consequências econômicas. Além disso, você certamente pode ver como o debate acerca de qual das duas respostas de Landes é correta pode se tornar ideologicamente carregado, embora, como ressalta Landes, “não está claro (…) que uma linha de argumentação necessariamente exclua a outra”.

2.2 Modelos econômicos: Como ver mais com menos

O que acontece na economia depende do que milhões de pessoas fazem e de como suas decisões afetam o comportamento das demais. Seria impossível entender a economia descrevendo cada detalhe de suas ações e interações. Precisamos ser capazes de afastar-nos do que observamos e analisar o panorama geral. Para isso, utilizamos modelos.

Para criar um bom modelo, precisamos separar as características fundamentais da economia que são relevantes para a questão que queremos responder dos detalhes sem importância. As primeiras devem ser incluídas no modelo, enquanto os segundos podem ser ignorados.

Modelos são apresentados de várias formas. Você já viu três destes nas Figuras 1.5, 1.8 e 1.12 no capítulo 1.
Modelos são apresentados de várias formas. Você já viu três destes nas Figuras 1.5, 1.8 e 1.12 no capítulo 1.
Modelos são apresentados de várias formas. Você já viu três destes nas Figuras 1.5, 1.8 e 1.12 no capítulo 1.
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Modelos são apresentados de várias formas. Você já viu três destes nas Figuras 1.5, 1.8 e 1.12 no capítulo 1.

fluxo
Uma quantidade mensurada por unidade de tempo, tal como renda anual ou salário por hora.

Modelos se apresentam de várias formas. Você já viu três destes nas Figuras 1.5, 1.8 e 1.12 no capítulo 1. Por exemplo, a Figura 1.12 ilustrou que as interações econômicas envolvem fluxos de bens (quando você compra uma máquina de lavar), serviços (quando você paga por cortes de cabelo ou passeios de ônibus) e também pessoas (quando você passa um dia trabalhando para um empregador).

A Figura 1.12 é um modelo esquemático que ilustra os fluxos ocorridos na economia e entre a economia e a biosfera. O modelo não é “realista” — a economia e a biosfera não se parecem nada com sua representação —, mas este, ainda sim, ilustra as relações entre estas. O fato de o modelo omitir muitos detalhes — e, nesse sentido, ser irrealista — é uma característica sua, e não uma falha.

A explicação de Malthus sobre por que as melhorias na tecnologia não conseguiam elevar os padrões de vida também se baseava em um modelo: uma simples descrição das relações entre renda e população.

Alguns economistas utilizaram modelos físicos para ilustrar e explorar o funcionamento da economia. Para sua tese de doutorado na Universidade de Yale, em 1891, Irving Fisher desenvolveu um aparato hidráulico (Figura 2.2) para representar fluxos na economia. O modelo utilizava alavancas interligadas e cisternas flutuantes de água, com o objetivo de mostrar como os preços dos bens dependem da quantidade de cada bem fornecido, das rendas dos consumidores e do quanto estes valorizam cada um dos bens. Todo o aparato para de funcionar quando a água nas cisternas chegava no mesmo nível do tanque ao seu redor. Em equilíbrio, a posição de uma partição em cada cisterna corresponde ao preço de cada bem. Pelos próximos 25 anos, Fisher usaria a engenhoca para ensinar aos alunos como os mercados funcionam.

Desenho do modelo hidráulico de equilíbrio econômico de Irving Fisher (1891).
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Figura 2.2 Desenho do modelo hidráulico de equilíbrio econômico de Irving Fisher (1891).

Brainard, William C.; Scarf, Herbert E. How to Compute Equilibrium Prices in 1891. In: American Journal of Economics and Sociology 64(1). 2005, p. 57–83.

Como os modelos são usados em economia

O estudo da economia feito por Fisher ilustra como os modelos são utilizados:

  1. Primeiro, Fischer desenvolveu um modelo para captar os elementos da economia que considerava importantes para a determinação dos preços.
  2. Depois, utilizou o modelo para mostrar como as interações entre esses elementos poderiam resultar em um conjunto de preços que não se alteravam.
  3. Por fim,realizou experimentos com o modelo para descobrir os efeitos de mudanças nas condições econômicas: por exemplo, se a oferta de um dos bens aumentasse, o que aconteceria com seu preço? O que aconteceria com os preços de todos os outros bens?

A tese de doutorado de Irving Fisher representava a economia como um grande tanque de água, mas ele não era nenhum cientista maluco. Pelo contrário, sua “máquina” foi descrita por Paul Samuelson, um dos grandes economistas do século XX, como “a melhor dissertação de doutorado em economia já escrita”. Fisher se tornou um dos economistas mais respeitados do século XX, e suas contribuições foram a base das teorias modernas do crédito, do ponto de vista de devedores ou credores, que descreveremos no capítulo 10.

equilíbrio
Resultado autossustentável de um modelo. Nesse caso, o objeto de interesse não muda a menos que se introduza uma força externa que altere a descrição da situação feita pelo modelo.

A máquina de Fisher ilustra um importante conceito econômico. O equilíbrio é definido como uma situação que perpetua a si mesma, o que significa que o objeto de interesse não muda a menos que se introduza uma força externa que altere a descrição da situação feita pelo modelo. O aparato hidráulico de Fisher ilustrava o equilíbrio em seu modelo econômico ao igualar os níveis de água, que representavam preços constantes.

nível de subsistência
O nível de padrão de vida (mensurado pelo consumo ou pela renda) para o qual a população não cresce nem se reduz.

Utilizaremos o conceito de equilíbrio para explicar preços nos capítulos posteriores, mas também vamos aplicá-lo ao modelo malthusiano. Uma renda equivalente ao nível de subsistência constitui um equilíbrio porque, assim como as diferenças nos níveis de água das várias cisternas na máquina de Fisher, movimentos de afastamento da renda de subsistência são autocorretivos: isto é, automaticamente retornam para a renda de subsistência à medida que a população cresce.

Note que equilíbrio significa que uma ou mais coisas no modelo são constantes. Isso não significa que nada muda. Por exemplo, podemos ver um equilíbrio no qual o PIB ou os preços estão aumentando, mas a uma taxa constante.

Embora seja improvável que você construa um modelo hidráulico, você trabalhará, no papel ou no computador, com muitos modelos existentes, e algumas vezes criará seus próprios modelos econômicos.

Quando construímos um modelo, o processo segue os seguintes passos:

  1. Elaboramos uma descrição simplificada das condições sob as quais as pessoas agem.
  2. Descrevemos então, em termos simples, o que determina as ações que as pessoas adotam.
  3. Determinamos como a ação de cada pessoa afeta a outra.
  4. Estabelecemos o resultado dessas ações. Com frequência, esse resultado é um equilíbrio — ou seja, algo está constante.
  5. Por fim, tentamos obter mais conclusões ao estudar o que acontece com certas variáveis quando as condições mudam.

Modelos econômicos

Um bom modelo tem quatro atributos:

  • É claro: ajuda-nos a entender melhor algo importante.
  • Prevê com precisão: suas previsões são coerentes com as evidências.
  • Melhora a comunicação: ajuda-nos a entender melhor em que pontos concordamos (ou não).
  • É útil: podemos utilizá-lo para buscar formas de melhorar o funcionamento da economia.

Os modelos econômicos muitas vezes utilizam equações matemáticas e gráficos, assim como palavras e imagens.

A matemática faz parte da linguagem da economia e pode ajudar-nos a comunicar precisamente nossas afirmações sobre os modelos para as outras pessoas. Uma grande parte do conhecimento de economia, no entanto, não pode ser expressa apenas pela matemática, mas exige descrições claras, ao utilizar definições padronizadas dos termos.

Utilizaremos a matemática e as palavras para descrever os modelos, geralmente representados na forma de gráficos. Se você quiser, também poderá analisar algumas equações por trás dos gráficos: basta procurar pelas referências ao nosso suplemento Leibniz, em destaque nas margens.

Introdução aos Leibnizes

Um modelo começa com alguns pressupostos e hipóteses sobre como as pessoas se comportam e, muitas vezes, nos fornece previsões sobre o que observaremos na economia. Reunir dados sobre a economia e compará-los com as previsões do modelo ajuda-nos a decidir se as hipóteses que fizemos ao desenvolvê-lo — o que incluímos ou não — são justificáveis.

Governos, bancos centrais, empresas, associações sindicais e quaisquer outros agentes que desenvolvam políticas ou previsões utilizam algum tipo de modelo simplificado.

Modelos ruins podem levar a políticas desastrosas, como veremos posteriormente. Para confiar em um modelo, precisamos verificar se este é coerente com as evidências.

Veremos que nossos modelos econômicos sobre o círculo vicioso dos níveis de vida de subsistência proposto por Malthus, bem como o sobre a revolução tecnológica permanente, passam nesse teste — ainda que deixem muitas perguntas sem resposta.

Exercício 2.1 Desenvolvendo um modelo

Para um país (ou cidade) da sua escolha, observe um mapa da rede de transporte ferroviário ou público.

Assim como os modelos econômicos, os mapas são representações simplificadas da realidade: incluem informações relevantes enquanto excluem detalhes irrelevantes.

  1. Como você acha que o cartógrafo selecionou quais características da realidade deveriam ser incluídas no mapa que você escolheu?
  2. De que forma um mapa se diferencia de um modelo econômico?

2.3 Conceitos básicos: preços, custos e rendas de inovação

ceteris paribus
Os economistas buscam simplificar as análises deixando de lado o que for considerado pouco importante para a questão de interesse. O significado literal dessa expressão é “tudo o mais constante”. Em um modelo econômico, isso significa que uma análise mantém inalteradas todas as outras coisas
incentivo
Recompensa ou punição econômica que influencia os benefícios e os custos de cursos alternativos de ação.
preço relativo
O preço de um bem ou serviço em relação a outro bem. Geralmente, é expresso por uma razão.
renda econômica
Pagamento ou outro benefício recebido acima ou além do que o indivíduo receberia ao optar por sua segunda melhor alternativa (ou opção de reserva). Veja também: opção de reserva.

Neste capítulo, desenvolveremos um modelo econômico para ajudar a explicar as circunstâncias sob as quais novas tecnologias são escolhidas, tanto nas economias do passado como nas contemporâneas. Utilizaremos quatro conceitos fundamentais de modelagem econômica:

  • Ceteris paribus e outras simplificações nos ajudam a nos concentrar nas variáveis de interesse. Nós enxergamos mais olhando para menos coisas.
  • Incentivos são importantes porque afetam os benefícios e os custos de adotar uma ação ao invés da outra.
  • Preços relativos nos ajudam a comparar alternativas.
  • A renda econômica é a base de como as pessoas fazem escolhas.

Parte do processo de aprender economia envolve descobrir uma nova linguagem. Os termos a seguir serão recorrentes nos capítulos seguintes, e é importante aprender a usá-los com precisão e segurança.

Ceteris paribus e simplificação

Os economistas muitas vezes simplificam uma análise ao deixar de lado coisas que são consideradas de menor importância para a questão de interesse, como é comum na investigação científica. Para isso, utilizam a expressão “mantendo tudo o mais constante” ou, mais frequentemente, a expressão em latim ceteris paribus, que significa “tudo o mais igual”. Por exemplo, mais à frente nesse curso, simplificaremos uma análise sobre o que pessoas escolheriam comprar apenas observando o efeito da variação do preço — ignorando outras influências sobre nosso comportamento, como fidelidade à marca ou a opinião de outras pessoas sobre nossas escolhas. A pergunta é: o que aconteceria se o preço mudasse, mas tudo o mais que pudesse influenciar a decisão permanecesse igual? Quando bem utilizados, os pressupostos ceteris paribus podem facilitar a visualização de nosso objeto de estudo sem distorcer os fatos principais.

Ao estudar a forma como o sistema econômico capitalista promove progresso tecnológico, observaremos como alterações no salário afetam as escolhas tecnológicas das empresas. Para obter o modelo mais simples possível, mantemos constantes outros fatores que afetem as empresas. Então assumimos que:

  • Os preços de todos os insumos são os mesmos para todas as empresas.
  • Todas as empresas conhecem as tecnologias utilizadas pelas outras empresas.
  • As atitudes em relação ao risco são semelhantes entre os proprietários das empresas.

Exercício 2.2 Utilizando o pressuposto ceteris paribus

Suponha que você desenvolveu um modelo do mercado de guarda-chuvas, no qual a quantidade prevista de guarda-chuvas vendidos por uma loja depende de sua cor e preço, ceteris paribus.

  1. As cores e os preços são variáveis utilizadas para prever as vendas. Que outras variáveis são mantidas constantes?

Quais das seguintes questões você acha que esse modelo seria capaz de responder? Em cada caso, sugira aprimoramentos que devem ser feitos para que o modelo possa te ajudar a responder a pergunta.

  1. Por que a venda anual de guarda-chuvas é maior na capital do que em outras cidades?
  2. Por que a venda anual de guarda-chuvas é maior em algumas lojas da capital do que em outras?
  3. Por que as vendas semanais de guarda-chuvas na capital aumentaram ao longo dos últimos seis meses?

A importância dos incentivos

Por que a água do modelo hidráulico de Fischer para a economia se movimentava quando ele mudava a quantidade de oferta ou de demanda por um ou mais bens, de maneira que os preços não estavam mais em equilíbrio?

  • A gravidade age sobre a água, levando-a ao nível mais baixo.
  • Os canais permitem que a água encontre o nível mais baixo, mas restringem a forma como ela pode fluir.

Todos os modelos econômicos têm algo equivalente à gravidade e a um conjunto de movimentos possíveis. O que equivale à gravidade nos modelos econômicos é a suposição de que, ao fazerem uma escolha em detrimento de outra, as pessoas estão tentando fazer o melhor que podem (segundo alguns padrões).

A analogia com o livre movimento da água na máquina de Fisher é que as pessoas são livres para adotarem diferentes formas de agir, em vez de simplesmente ouvirem o que devem fazer. É aqui que os incentivos econômicos afetam as escolhas que fazemos. No entanto, não podemos fazer tudo o que queremos: nem todos os “canais” estão abertos para nós.

Assim como muitos modelos econômicos, aquele que utilizaremos para explicar a revolução tecnológica permanente baseia-se na ideia de que pessoas e firmas respondem a incentivos econômicos. Como veremos no capítulo 4, as pessoas são motivadas não apenas pelo desejo por ganhos materiais, mas também por amor, ódio, senso de dever e necessidade de aprovação. Ainda assim, o conforto material é um motivo importante, e os incentivos econômicos referem-se especificamente a este.

Quando os proprietários ou gerentes de empresas decidem quantos trabalhadores contratar, ou quando os consumidores decidem o que e quanto comprar, os preços são fatores determinantes em suas decisões. Se os preços estão muito mais baixos no supermercado do que na loja da esquina e o primeiro não é muito longe, então temos um bom argumento para fazer compras no supermercado e não na loja.

Preços relativos

Uma terceira característica de muitos modelos econômicos é que, muitas vezes, estamos interessados na razão entre as coisas, e não em seu nível absoluto. Isso se dá porque a economia se atenta para as alternativas e as escolhas possíveis. Se você está decidindo onde comprar, os preços da loja da esquina não importam por si sós, mas sim os preços desta em comparação — ou seja, relativos — aos do supermercado e ao custo de chegar ao supermercado. Se todos estes aumentassem em 5%, sua decisão provavelmente não mudaria.

Preços relativos são simplesmente o preço de uma opção em relação ao preço de outra. Geralmente, expressamos o preço relativo como a razão entre dois preços. Veremos que estes são muito importantes para explicar não apenas o que os consumidores decidem comprar, mas também por que as empresas fazem determinadas escolhas. Ao estudar a Revolução Industrial, notaremos que a razão entre os preços de energia (como, por exemplo, o preço do carvão para alimentar um motor a vapor) e o salário (definido como o preço de uma hora de trabalho) desempenha um papel importante nessa história.

Posições de reserva e rendas

Imagine que você descobriu uma nova forma de reproduzir som com alta qualidade. Sua invenção é muito mais barata de usar que as alternativas existentes e seus competidores não podem copiá-la, seja porque não conseguem descobrir como fazê-lo ou porque você detém a patente do processo (o que torna ilegal copiá-lo). Eles então continuam oferecendo seus serviços a um preço muito maior que o seu.

Se você igualar seu preço ao de seus concorrentes ou reduzi-lo um pouco, venderá tudo que puder produzir e obterá lucros muito maiores que os deles, ainda que cobre o mesmo preço. Nesse caso, dizemos que você está obtendo rendas de inovação, que são um tipo de renda econômica. Essas últimas ocorrem em toda a economia e são uma das razões pelas quais o capitalismo pode ser um sistema tão dinâmico.

renda econômica
Pagamento ou outro benefício recebido acima ou além do que o indivíduo receberia ao optar por sua segunda melhor alternativa (ou opção de reserva). Veja também: opção de reserva.

Utilizaremos a ideia de renda de inovação para explicar alguns dos fatores que contribuíram para a Revolução Industrial. No entanto, o conceito de renda econômica, por si só, tem caráter mais geral e ajudará a explicar muitas outras características da economia.

Quando a opção por alguma alternativa (que vamos chamar de opção A) gera um benefício maior do que a segunda melhor alternativa geraria, dizemos que você recebeu uma renda econômica.

O termo renda pode facilmente ser confundido com seu uso corriqueiro, como o valor pago para alugar um carro, um apartamento ou um pedaço de terra. Para evitar a confusão, enfatizamos a palavra econômica. Lembre-se: uma renda econômica é algo que você gostaria de obter, e não algo que você tem de pagar.

opção de reserva
Dentre todas as opções de ação disponíveis para alguém, a opção de reserva é a melhor alternativa subsequente a uma determinada escolha. Também conhecida como: opção de recuo. Veja também: preço de reserva.

Ao ordenarmos as alternativas por benefício, a opção que gera o segundo maior benefício líquido (ação B) é geralmente chamada de segunda melhor alterantiva, de posição de reserva ou de opção de reserva, o termo que usamos: essa opção está “reservada” caso você não escolha a opção A. Ou, se estiver gostando da opção A, mas alguém te impedir de continuar a praticá-la, sua opção de reserva é seu plano B. É por isso que esta também é chamada de opção de recuo.

A renda econômica oferece-nos uma regra de decisão simples:

  • Se a opção A lhe der uma renda econômica (e ninguém for prejudicado): faça o que diz a opção A!
  • Se você já está praticando a opção A e esta lhe dá uma renda econômica: continue a executá-la!

Essa regra de decisão está por trás da nossa explicação de por que uma empresa pode inovar ao passar de uma tecnologia para outra. Assim, começaremos a próxima seção comparando tecnologias.

Questão 2.2 Selecione a(s) resposta(s) correta(s)

Qual(is) das seguintes alternativas é(são) considerada(s) renda(s) econômica(s)?

  • O valor pago a um proprietário para utilizar seu apartamento.
  • O valor pago para alugar um carro por um fim de semana.
  • O lucro extra que um inovador bem-sucedido obtém ao trazer um novo produto ao mercado antes dos seus competidores.
  • O lucro extra que uma empresa obtém quando dobra de tamanho e não há alterações nos custos ou no preço de cada unidade de sua produção.
  • Esta é a definição cotidiana de “renda” . Renda econômica é algo que você gostaria de obter, e não algo que você tem de pagar.
  • Uma renda econômica é o que você ganha a mais do que ganharia ao escolher sua segunda melhor alternativa. Renda econômica é algo que você gostaria de receber, e não algo que você paga.
  • Esta forma particular de renda econômica é chamada de renda de inovação, na qual os lucros com a adoção de novas tecnologias excedem aqueles oferecidos pela segunda melhor alternativa.
  • Esta seria a definição de lucro normal obtido em troca de trabalhar com afinco. Renda econômica, por sua vez, é o que você ganha acima do que receberia ao escolher sua segunda melhor alternativa; por exemplo, ao escolher trabalhar arduamente em outro emprego.

2.4 Criando um modelo para uma economia dinâmica: tecnologia e custos

Agora, aplicaremos essas noções de modelagem para explicar o progresso tecnológico. Nesta seção, consideramos as seguintes questões:

  • O que é tecnologia?
  • Como uma empresa avalia o custo das diferentes tecnologias?

O que é uma tecnologia?

Suponha que pedimos a um engenheiro para listar as tecnologias disponíveis para produzir 100 metros de tecido, cujos insumos são o trabalho (número de trabalhadores, cada um trabalhando oito horas por dia) e a energia (toneladas de carvão). A resposta está representada no diagrama e na tabela da Figura 2.3. Os cinco pontos na tabela representam cinco tecnologias diferentes. Por exemplo, a tecnologia E utiliza 10 trabalhadores e 1 tonelada de carvão para produzir 100 metros de tecido.

Siga as etapas da Figura 2.3 para entender as cinco tecnologias.

Tela inteira
Tecnologia Número de trabalhadores Carvão necessário (toneladas)
A 1 6
B 4 2
C 3 7
D 5 5
E 10 1

Figura 2.3 Diferentes tecnologias para produção de 100 metros de tecido.

Comparando cinco tecnologias para produzir 100 metros de tecido
:
Tela inteira
Tecnologia Número de trabalhadores Carvão necessário (toneladas)
A 1 6
B 4 2
C 3 7
D 5 5
E 10 1

Comparando cinco tecnologias para produzir 100 metros de tecido

A tabela descreve cinco tecnologias diferentes a que nos referiremos ao longo desta seção. As tecnologias exibidas utilizam diferentes quantidades de trabalho e carvão como insumos para produção de 100 metros de tecido.

Tecnologia A: utilização intensiva de energia
:
Tela inteira
Tecnologia Número de trabalhadores Carvão necessário (toneladas)
A 1 6
B 4 2
C 3 7
D 5 5
E 10 1

Tecnologia A: utilização intensiva de energia

A tecnologia A é a que utiliza maior intensidade de energia: utilizando 1 trabalhador e 6 toneladas de carvão.

Tecnologia B
:
Tela inteira
Tecnologia Número de trabalhadores Carvão necessário (toneladas)
A 1 6
B 4 2
C 3 7
D 5 5
E 10 1

Tecnologia B

A tecnologia B emprega 4 trabalhadores e 2 toneladas de carvão: é, portanto, mais intensiva em trabalho que a tecnologia A.

Tecnologia C
:
Tela inteira
Tecnologia Número de trabalhadores Carvão necessário (toneladas)
A 1 6
B 4 2
C 3 7
D 5 5
E 10 1

Tecnologia C

A tecnologia C emprega 3 trabalhadores e 7 toneladas de carvão.

Tecnologia D
:
Tela inteira
Tecnologia Número de trabalhadores Carvão necessário (toneladas)
A 1 6
B 4 2
C 3 7
D 5 5
E 10 1

Tecnologia D

A tecnologia D utiliza 5 trabalhadores e 5 toneladas de carvão.

Tecnologia E: utilização intensiva de trabalho
:
Tela inteira
Tecnologia Número de trabalhadores Carvão necessário (toneladas)
A 1 6
B 4 2
C 3 7
D 5 5
E 10 1

Tecnologia E: utilização intensiva de trabalho

Por fim, a tecnologia E utiliza 10 trabalhadores e 1 tonelada de carvão. Das cinco tecnologias disponíveis, é a de maior intensidade de trabalho.

Descrevemos a tecnologia E como relativamente intensiva em trabalho e a tecnologia A como relativamente intensiva em energia. Se uma economia empregava a tecnologia E e passou a utilizar A ou B, diríamos que foi adotada uma tecnologia poupadora de mão de obra, pois o volume de trabalho utilizado para produzir 100 metros de tecido com essas duas tecnologias é menor do que o exigido pela tecnologia E. Foi isso que ocorreu durante a Revolução Industrial.

dominado
Descrevemos um resultado dessa forma se pudermos obter mais de algo considerado benéfico sem ter que abrir mão de qualquer outra coisa também considerada benéfica. Em suma: um resultado é dominado se houver uma alternativa ganha-ganha — que, portanto, o supera.

Qual tecnologia a empresa escolherá? O primeiro passo é excluir as tecnologias que são obviamente inferiores. Na Figura 2.4, começamos observando a tecnologia A e verificamos se alguma das tecnologias alternativas emprega pelo menos as mesmas quantidades de trabalho e carvão que a primeira. Observa-se que a tecnologia C é inferior a A: para produzir 100 metros de tecido, C utiliza mais trabalhadores (três em vez de um) e mais carvão (sete toneladas em vez de seis). Portanto, dizemos que a tecnologia C é dominada pela A: assumindo que todos os insumos devem ser pagos pelas firmas, nenhuma delas utilizará a tecnologia C enquanto a A estiver disponível. As etapas da Figura 2.4 mostram como identificar quais tecnologias são dominadas e quais são dominantes.

Tela inteira

Figura 2.4 A tecnologia A domina a C, e a tecnologia B domina a D.

Quais tecnologias dominam as outras?
:
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Quais tecnologias dominam as outras?

As cinco tecnologias disponíveis para produção de 100 metros de tecido são representadas pelos pontos A, B, C, D e E. Podemos usar essa figura para mostrar quais tecnologias dominam as demais.

A domina C
:
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A domina C

Claramente, a tecnologia A domina a C: a mesma quantidade de tecido pode ser produzida usando-se A com menos trabalho e energia. Isso significa que sempre que A estiver disponível, nunca se utilizará C.

B domina D
:
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B domina D

A tecnologia B domina a D: a mesma quantidade de tecido pode ser produzida com menos insumos ao utilizar B. Note que B domina qualquer outra tecnologia que esteja na parte sombreada acima e à direita do ponto B.

E não domina
:
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E não domina

A tecnologia A domina a C, e a tecnologia B domina a D. A tecnologia E, por sua vez, não domina nenhuma das outras tecnologias disponíveis. Sabemos disso porque nenhuma das outras quatro está representada na área acima e à direita de E

Ao utilizarmos apenas as informações de engenharia sobre os insumos, reduzimos o número de opções: as tecnologias C e D nunca seriam escolhidas. Mas como as empresas escolheriam entre A, B ou E? Isso requer uma suposição sobre o que a empresa está tentando fazer. Assumimos que seu objetivo é gerar o máximo de lucro possível, o que significa produzir tecido ao menor custo possível.

Decidir qual tecnologia empregar também requer informações econômicas sobre os preços relativos: o custo de contratar um trabalhador em relação ao custo de comprar 1 tonelada de carvão. Intuitivamente, a tecnologia intensiva em trabalho E seria escolhida se a mão de obra fosse muito barata em relação ao custo do carvão; analogamente, a tecnologia intensiva em energia A seria preferível caso o carvão fosse relativamente barato. Assim, um modelo econômico nos ajudará a ser mais precisos.

Como uma empresa avalia o custo de produção sob diferentes tecnologias?

O custo de utilizar qualquer combinação de insumos disponível pode ser calculado ao multiplicar-se o número de trabalhadores por seu salário e o número de toneladas de carvão pelo seu preço. Utilizamos o símbolo w para o salário, L para o número de trabalhadores, p para o preço do carvão e R para as toneladas de carvão:

linha de isocusto
Uma linha que representa todas as combinações que custam determinado valor total. Também conhecido como: isocusto.

Suponha que o salário é de £10 e o preço do carvão é £20 por tonelada. Na tabela da Figura 2.5, calculamos o custo de empregar 2 trabalhadores e 3 toneladas de carvão, que é de £80, correspondente à combinação P1 no diagrama. Se a empresa fosse contratar mais trabalhadores — por exemplo, outros seis — mas reduzisse o uso de carvão para 1 tonelada (ponto P2), o custo também seria de £80. Siga as etapas da Figura 2.5 para ver como construímos linhas de isocusto, com o objetivo de comparar os custos de todas as combinações possíveis de insumos.

Tela inteira

Figura 2.5 Linhas de isocusto quando o salário é £10 e o preço do carvão é £20.

O custo total em  P1
:
Tela inteira

O custo total em P1

O custo total de empregar dois trabalhadores e três toneladas de carvão é (2 × 10) + (3 × 20) = £80.

P2 também custa £80
:
Tela inteira

P2 também custa £80

Se o número de trabalhadores aumentar para 6, chegando a £60, e o insumo de carvão for reduzido a uma tonelada, o custo total ainda será de £80.

A linha de isocusto para £80
:
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A linha de isocusto para £80

A linha reta que passa por P1 e P2 une todos os pontos nos quais o custo total é de £80. Por isso, esta é chamada de linha isocusto: iso significa “mesmo” em grego. Simplificamos o desenho da linha assumindo que é possível comprar frações de trabalho e carvão.

Uma linha de isocusto superior
:
Tela inteira

Uma linha de isocusto superior

No ponto Q1 (3 trabalhadores, 6 toneladas de carvão), o custo total é de £150. Para encontrar a linha de isocusto de £150, procure por outro ponto que custe £150: se mais 2 trabalhadores forem empregados, o insumo de carvão deve ser reduzido em uma tonelada para manter o custo em £150, como mostra o ponto Q2.

Mais linhas de isocusto
:
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Mais linhas de isocusto

Podemos desenhar linhas de isocusto unindo qualquer outro conjunto de pontos no diagrama. Se os preços dos insumos são fixos, as linhas de isocusto são paralelas. Um jeito simples de desenhar qualquer linha é encontrar seus pontos extremos: por exemplo, a linha de £80 une os pontos J (4 toneladas de carvão e nenhum trabalhador) e H (8 trabalhadores e nada de carvão).

A inclinação de toda linha de isocusto é: −(w/p)
:
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A inclinação de toda linha de isocusto é: −(w/p)

A inclinação das linhas de isocustos é negativa (isto é, são inclinadas para baixo). Nesse caso, a inclinação é de −0,5, porque, em cada ponto, se um trabalhador a mais fosse contratado por £10 e a quantidade de carvão se reduzisse em 0,5 toneladas (o que pouparia £10), o custo total permaneceria o mesmo. A inclinação é igual a −(w/p), o salário dividido pelo preço do carvão.

Pontos acima de uma linha de isocusto custam mais
:
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Pontos acima de uma linha de isocusto custam mais

Se considerarmos a linha de isocusto de £80, por exemplo, podemos observar que todos os pontos acima da linha custam mais de £80 e todos os pontos abaixo custam menos.

As linhas de isocusto conectam todas as combinações de trabalhadores e carvão que custam o mesmo valor. Podemos utilizá-las para comparar os custos das três tecnologias que ainda estão no páreo (ou seja, não são dominadas: A, B e E).

A tabela na Figura 2.6 mostra o custo de produzir 100 metros de tecido com cada uma das tecnologias quando o salário é £10 e o preço do carvão £20. Nitidamente, a tecnologia B permite que a empresa produza tecido a um menor custo.

No diagrama, ilustramos a linha de isocusto que passa pelo ponto correspondente à tecnologia B. Imediamente, isso mostra que, a esses preços de insumos (lembre-se que o salário é o “preço” do trabalho), as outras duas tecnologias são mais caras.

Tela inteira
Tecnologia Número de trabalhadores Carvão necessário (toneladas) Custo total (£)
B 4 2 80
A 1 6 130
E 10 1 120

Salário a £10 e custo do carvão a £20 por tonelada

Figura 2.6 O custo de diferentes tecnologias para produzir 100 metros de tecido: baixo custo relativo do trabalho.

Na Figura 2.6, podemos ver que B é a tecnologia de menor custo quando w = 10 e p = 20. As outras tecnologias disponíveis não serão escolhidas sob esses preços de insumos. Note que o que importa é o preço relativo, e não o absoluto. Se ambos dobrarem, o diagrama seria muito semelhante: a linha de isocusto passando por B teria a mesma inclinação, mas o custo seria de £160.

Podemos agora representar as linhas de isocusto por meio de equações, sejam quais forem o salário w e o preço p do carvão. Começamos com a equação do custo de produção, representado por c:

Isto é:

Essa é uma forma de escrever a equação da linha de isocusto para qualquer valor de c.

Para desenhar uma linha de isocusto, pode ser útil expressá-la da seguinte forma:

em que a, uma constante, é o intercepto do eixo vertical e b é a inclinação da linha. Em nosso modelo, as toneladas de carvão R estão no eixo vertical, e o número de trabalhadores L, no eixo horizontal. Veremos que a inclinação da linha é dada pelo salário em relação ao preço do carvão −(w/p). A linha de isocusto inclina-se para baixo, de modo que o termo de inclinação da equação, dado por −(w/p), é negativo.

A equação:

pode ser reescrita como:

e, em seguida, como:

Portanto, quando w = 10 e p = 20, a linha de isocusto para c = 80 intercepta o eixo Y em 80/20 = 4 e tem inclinação negativa igual a −(w/p) = − 1/2. A inclinação é o preço relativo do trabalho.

Exercício 2.3 Linhas de isocusto

Suponha que o salário é £10, mas o preço do carvão é apenas £5.

  1. Qual é o preço relativo do trabalho?
  2. Utilizando o método descrito pelo texto, escreva a equação da linha de isocusto para c = £60 e reescreva-a na fórmula padrão y = a + bx.
  3. Escreva as equações para as linhas de isocusto de £30 e £90, também na fórmula padrão, e desenhe as três linhas em um diagrama. Como o conjunto de linhas de isocusto para esses preços de insumos se compara àquele para w = 10 e p = 20?

2.5 Modelando uma economia dinâmica: inovação e lucro

Vimos que, quando o salário é de £10 e o preço do carvão £20, B é a tecnologia de menor custo.

Qualquer mudança no preço relativo desses dois insumos alterará a inclinação das linhas de isocusto. Ao observar as posições das três tecnologias na Figura 2.7, podemos deduzir que, se a linha de isocusto se tornar suficientemente íngreme (com o salário aumentando em relação ao custo do carvão), B deixará de ser a tecnologia de menor custo, e a empresa passará a utilizar A. Isto foi o que aconteceu na Inglaterra no século XVIII.

Vamos ver como uma mudança nos preços relativos pode causar essas mudanças. Suponha que o preço do carvão se reduza a £5 enquanto o salário permanece em £10.

A tabela da Figura 2.7 mostra que, com os novos preços, a tecnologia A permite que a empresa produza 100 metros de tecido ao menor custo. O menor preço do carvão diminui o custo de todos os métodos de produção, mas a tecnologia intensiva em energia passa a ser a mais barata.

Tela inteira
Tecnologia Número de trabalhadores Carvão necessário (toneladas) Custo total (£)
B 4 2 50
A 1 6 40
E 10 1 105

Salário a £10 e custo do carvão a £5 por tonelada

Figura 2.7 Custo de produção de 100 metros de tecido: alto preço relativo do trabalho.

A tecnologia A é a de menor custo quando o carvão é relativamente barato
:
Tela inteira
Tecnologia Número de trabalhadores Carvão necessário (toneladas) Custo total (£)
B 4 2 50
A 1 6 40
E 10 1 105

Salário a £10 e custo do carvão a £5 por tonelada

A tecnologia A é a de menor custo quando o carvão é relativamente barato

Quando o salário é £10 e o preço do carvão £5, a tabela mostra que a tecnologia A, mais intensiva em tecnologia do que as outras, pode produzir 100 metros de tecido a um custo menor que B ou E.

A curva de isocusto de £40 quando w = 10 e p = 5
:
Tela inteira
Tecnologia Número de trabalhadores Carvão necessário (toneladas) Custo total (£)
B 4 2 50
A 1 6 40
E 10 1 105

Salário a £10 e custo do carvão a £5 por tonelada

A curva de isocusto de £40 quando w = 10 e p = 5

A tecnologia A está na linha de isocusto FG. O custo total dos insumos em qualquer ponto da linha é de £40. As tecnologias B e E, com custos mais altos, estão acima dessa linha.

A inclinação da reta isocusto
:
Tela inteira
Tecnologia Número de trabalhadores Carvão necessário (toneladas) Custo total (£)
B 4 2 50
A 1 6 40
E 10 1 105

Salário a £10 e custo do carvão a £5 por tonelada

A inclinação da reta isocusto

É possível encontrar a inclinação da linha de isocusto calculando o preço relativo do trabalho, que é igual a −(10/5) = −2. Se você gasta £10 para contratar mais um trabalhador, pode reduzir o carvão em 2 toneladas e manter o custo total em £40.

Para desenhar a linha de isocusto que atravessa qualquer ponto, como em A, lembre-se que calculamos o custo em A (£40) e então procuramos outro ponto de mesmo custo. A forma mais fácil é encontrar um dos pontos extremos F ou G. Por exemplo, se o carvão não for usado, quatro trabalhadores podem ser contratados por £40: esse é o ponto F.

Na Figura 2.7, você pode observar que, com o novo preço relativo, a tecnologia A se encontra na linha de isocusto de £40, e as outras duas tecnologias disponíveis ficam acima dessa linha. Se A estiver acessível, as outras tecnologias não serão escolhidas.

Como uma inovação capaz de reduzir custos aumenta os lucros de uma empresa?

O próximo passo é calcular quanto ganha a primeira empresa que adotar a tecnologia de menor custo (A) quando o preço do trabalho aumentar em relação ao do carvão. Como todos os seus concorrentes, a empresa utiliza inicialmente a tecnologia B, o que minimiza seus custos. A Figura 2.8 mostra a linha de isocusto pontilhada que representa essa situação, com extremidades H e J, passando pelo ponto B .

Quando os preços relativos mudam, a tecnologia B é atravessada por uma nova linha de isocusto, que é mais inclinada e une os pontos cujo custo de produção é £50. A tecnologia A é mais intensiva em energia, mas menos intensiva em trabalho, e utilizá-la para produzir 100 metros de tecido reduz os custos para £40. Siga as etapas da Figura 2.8 para ver como as linhas de isocusto mudam com os novos preços relativos.

Tela inteira
Tecnologia Número de trabalhadores Carvão necessário (toneladas) Custo total (£)
Salário a £10 e custo do carvão a £20 por tonelada
B 4 2 80
Salário a £10 e custo do carvão a £20 por tonelada
B 4 2 50
A 1 6 40

Figura 2.8 Custo de utilizar diferentes tecnologias para produzir 100 metros de tecido.

Ao preço relativo original, B era a tecnologia de menor custo
:
Tela inteira
Tecnologia Número de trabalhadores Carvão necessário (toneladas) Custo total (£)
Salário a £10 e custo do carvão a £20 por tonelada
B 4 2 80

Ao preço relativo original, B era a tecnologia de menor custo

Quando o salário é £10 e o preço do carvão, relativamente caro, é de £20, o custo de produzir 100 metros de tecido com a tecnologia B é de £80: utilizá-la coloca a empresa na linha de isocusto HJ.

O preço do carvão cai para £5
:
Tela inteira
Tecnologia Número de trabalhadores Carvão necessário (toneladas) Custo total (£)
Salário a £10 e custo do carvão a £20 por tonelada
B 4 2 80
Salário a £10 e custo do carvão a £5 por tonelada
B 4 2 50
A 1 6 40

O preço do carvão cai para £5

Se o preço do carvão tem queda em relação ao salário, como mostra a linha de isocusto FG, então utilizar a tecnologia A, mais intensiva em energia do que a B, custa £40. Na tabela, podemos ver que, com esses preços relativos, A é a tecnologia de menor custo.

Agora a tecnologia B custa mais que a A
:
Tela inteira
Tecnologia Número de trabalhadores Carvão necessário (toneladas) Custo total (£)
Salário a £10 e custo do carvão a £20 por tonelada
B 4 2 80
Salário a £10 e custo do carvão a £5 por tonelada
B 4 2 50
A 1 6 40

Agora a tecnologia B custa mais que a A

Com os novos preços relativos, a tecnologia B está na linha de isocusto MN, na qual o custo é de £50. É mais barato mudar para a tecnologia A.

Os lucros da empresa são iguais à receita obtida com a venda de produtos menos o custo de produzi-los.

Seja qual for a tecnologia utilizada, nova ou velha, os preços pagos pelo trabalho e pelo carvão são os mesmos, e o preço a que a empresa vende 100 metros de tecido também. A mudança no lucro é, portanto, igual à queda nos custos causada pela adoção da nova tecnologia, e os lucros da venda de 100 metros de tecido aumentam em £10:

Nesse caso, a renda econômica de uma empresa que passa da tecnologia B para a A é de £10 por 100 metros de tecido, que é igual à redução de custo possibilitada pela nova tecnologia. A regra de decisão (se a renda econômica for positiva, faça!) indica que a empresa deve inovar.

empreendedor
Pessoa que cria ou é um dos pioneiros na adoção de novas tecnologias, formas organizacionais e outras oportunidades.

Em nosso exemplo, a tecnologia A estava disponível, mas não foi utilizada até que uma empresa pioneira a adotasse como resposta ao incentivo criado pelo aumento no preço relativo do trabalho. A primeira firma a adotar uma nova tecnologia é chamada de empreendedora. Quando descrevemos pessoas ou empresas como empreendedoras, referimos-nos a sua disposição em testar novas tecnologias e iniciar novos negócios.

O economista Joseph Schumpeter (veja abaixo) deu um papel fundamental à adoção de inovações tecnológicas por empreendedores em sua explicação para o dinamismo do capitalismo. Por isso, as rendas de inovação são muitas vezes chamadas de rendas schumpeterianas.

Rendas de inovação não duram para sempre: ao perceberem que os empreendedores estão gerando rendas econômicas, outras empresas adotarão a nova tecnologia, o que também reduz seus custos e aumenta seus lucros.

destruição criativa
Denominação de Joseph Schumpeter para o processo pelo qual antigas tecnologias e empresas que não se adaptam são destruídas por outras, mais modernas, porque não conseguem competir no mercado. Na sua visão, o fracasso de empresas não lucrativas é algo criativo para os mercados, ao permitir que mão-de-obra e bens de capital sejam usados em novas combinações.

Nesse caso, com maior lucro por 100 metros de tecido, as empresas de baixo custo prosperarão, aumentando sua produção. Conforme mais empresas adotam a nova tecnologia, aumenta a oferta de tecido no mercado e o preço do produto começa a cair. Esse processo continua até que todos estejam usando a nova tecnologia, estágio no qual os preços terão se reduzido a ponto de nenhuma empresa auferir rendas de inovação. Empresas que permanecerem utilizando a antiga tecnologia B vão se tornar incapazes de cobrir seus custos com a queda no preço do tecido e irão à falência. Joseph Schumpeter chamou esse processo de destruição criativa.

Questão 2.3 Selecione a(s) resposta(s) correta(s)

A Figura 2.3 mostra diferentes tecnologias para produzir 100 metros de tecido.

Com base no gráfico, o que podemos concluir?

  • A tecnologia D é mais intensiva em energia do que a tecnologia C.
  • A tecnologia B domina a tecnologia D.
  • A tecnologia A é a tecnologia de menor custo para todos os salários e preços de carvão.
  • A tecnologia C pode, algumas vezes, ser mais barata do que a tecnologia A.
  • A tecnologia D utiliza mais trabalhadores e menos carvão; portanto, é mais intensiva em trabalho do que a C.
  • A tecnologia B usa menos trabalhadores e menos toneladas de carvão do que a D para produzir a mesma quantidade de tecido; então, esta domina a tecnologia D.
  • A tecnologia A seria mais cara que B, D ou E se o preço do carvão fosse muito mais alto que o nível salarial.
  • A tecnologia C é dominada pela A, uma vez que usa mais trabalhadores e mais carvão do que A. Portanto, C jamais será mais barata que a tecnologia A.

Questão 2.4 Selecione a(s) resposta(s) correta(s)

Observe as três linhas de iscocusto na Figura 2.8.

Com base nessas informações, o que podemos concluir?

  • Quando o salário é £10 e o preço do carvão £5, a combinação de insumos no ponto N é mais cara que os insumos no ponto B.
  • As linhas de isocustos MN e FG representam a mesma razão de preços (salário/preço do carvão), mas têm diferentes custos totais de produção.
  • A linha de isocusto HJ representa maior razão (salário/preço do carvão) do que a linha FG.
  • A linha de isocusto HJ representa todos os pontos que podem produzir 100 metros de tecido a uma determinada razão de preços.
  • A esses preços, N e B estão na mesma linha de isocusto. As duas combinações de insumos custam o mesmo.
  • A razão de preços é igual à inclinação de uma isocusto. Como MN e FG têm a mesma inclinação, podemos inferir que representam a mesma razão de preços. MN é superior a FG, então representa custos totais maiores.
  • A isocusto FG tem inclinação de −2 (substituir duas toneladas de carvão por um trabalhador mantém o custo total de produção), enquanto a isocusto HJ tem inclinação de −0,5 (substituir uma tonelada de carvão por dois trabalhadores não altera o custo total). Isso significa que o trabalho é relativamente mais barato ao longo de HJ, ou ainda, que a isocusto de HJ tem menor razão salário/preço de carvão.
  • Uma isocusto representa todas as combinações de trabalhadores e toneladas de carvão para as quais o custo total de produção é o mesmo. Ao longo da isocusto HJ, no ponto B (4 trabalhadores e 2 toneladas de carvão), sabemos que a tecnologia pode produzir 100 metros de tecido. Se uma tecnologia estivesse disponível para produzir em um outro ponto da linha, não produziria necessariamente 100 metros de tecido.

Grandes Economistas Joseph Schumpeter

Joseph Schumpeter Joseph Schumpeter (1883–1950) desenvolveu um dos mais importantes conceitos da economia moderna: a destruição criativa.

Schumpeter trouxe para a economia a ideia de que o empreendedor é ator central no sistema econômico capitalista. O empreendedor é o agente de mudança que introduz novos produtos e novos métodos de produção, bem como abre novos mercados. Os imitadores o seguem e a inovação se difunde por toda a economia. Novos empreendedores e suas inovações são responsáveis pela aceleração do crescimento nos períodos seguintes.

Para Schumpeter, a destruição criativa é característica essencial do capitalismo: tecnologias antigas e empresas que não se adaptam são destruídas por outras, mais modernas, porque não conseguem competir no mercado vendendo a um preço que cubra seu custo de produção. O fracasso de empresas não lucrativas disponibiliza mão de obra e bens de capital para serem usados em novas combinações.

economia evolucionária
Abordagem que estuda o processo de mudança econômica, o que inclui a inovação tecnológica, a difusão de novas normas sociais e o desenvolvimento de novas instituições.

Esse processo descentralizado gera uma melhoria contínua na produtividade, o que leva a um maior crescimento, e por isso Schumpeter o definiu como virtuoso.9 A destruição das antigas empresas e a criação de novas são processos longos, cuja lentidão gera altos e baixos na economia. O ramo do pensamento econômico conhecido como economia evolucionária (você pode ler artigos sobre o tema no Journal of Evolutionary Economics) tem nítida origem no trabalho de Schumpeter, assim como a maioria dos modelos econômicos modernos que lidam com empreendedorismo e inovação. Leia, nestes ensaios, as ideias e as opiniões de Schumpeter em suas próprias palavras.10 11

Schumpeter nasceu na Áustria-Hungria, mas emigrou para os Estados Unidos depois que os nazistas ganharam as eleições de 1932, o que resultou na formação do Terceiro Reich em 1933. O autor já tinha passado pela Primeira Guerra Mundial e pela Grande Depressão da década de 1930, e morreu enquanto escrevia um ensaio intitulado “A Marcha para o Socialismo”, no qual registrou suas preocupações com o crescente papel do governo na economia e a resultante “migração das questões econômicas das pessoas da esfera privada para a pública”. Como um jovem professor na Áustria, Schumpeter enfrentou e venceu um duelo com o livreiro da universidade para assegurar que os estudantes tivessem acesso aos livros. Mais tarde, Schumpeter disse que tinha três ambições na vida quando era jovem: ser o melhor economista do mundo, o melhor amante do mundo, e o melhor cavaleiro do mundo. Somente a decadência da cavalaria, segundo ele, o impediu de atingir todas as três.

2.6 A Revolução Industrial britânica e os incentivos à inovação tecnológica

Antes da Revolução Industrial, a fiação, a tecelagem e a confecção de roupas para a família eram tarefas que consumiam o tempo das mulheres. Spinsters, que significa “fiandeiras” em inglês, era uma gíria para mulheres solteiras, cuja principal ocupação, supunha-se, era fiar (spinning).

Eve Fisher, historiadora, calculou que fazer uma camisa naquele tempo levava 500 horas apenas para fiação e 579 horas de trabalho no total — o que custava, com base no salário mínimo atual nos Estados Unidos, US$ 4.197,25.

Qual foi o efeito de invenções como a spinning Jenny, utilizada na fiação? Os primeiros modelos dessa máquina tinham oito fusos. Uma máquina desse tipo, operada por apenas um adulto, produzia o mesmo que oito fiandeiras trabalhando em oito rocas. No final do século XIX, uma única mula giratória, versão aperfeiçoada da Jenny, com motor hidráulico e manuseada por poucas pessoas, poderia substituir mais de mil fiandeiras. Essas máquinas não eram movidas pelo trabalho humano, mas por rodas d’água e, mais tarde, por motores a vapor alimentados com carvão. A Figura 2.9 resume as mudanças ocorridas durante a Revolução Industrial.

Tecnologia Antiga Tecnologia Nova
Muitos trabalhadores Poucos trabalhadores
Pouco maquinário (rocas) Muitos bens de capital (mulas giratórias, galpões de fábricas,
rodas d’água ou motores a vapor)
 … movido apenas por energia humana  … movidos a energia (carvão)
Intensiva em mão de obra Poupadora de mão de obra
Poupadora de capital Intensiva em capital
Poupadora de energia Intensiva em energia

Figura 2.9 Mudanças na tecnologia de fiação durante a Revolução Industrial.

O modelo examinado na seção anterior estabelece uma hipótese (isto é, uma potencial explicação) sobre por que alguém se preocuparia em inventar tal tecnologia e por que alguém desejaria utilizá-la. No modelo, produtores de tecido escolhem entre tecnologias que usam apenas dois insumos (energia e trabalho) o que é uma simplificação, mas ilustra a importância dos preços relativos dos insumos para escolher a tecnologia empregada. Quando o custo da mão de obra aumentava em relação ao custo de energia, surgia a possibilidade de receber rendas de inovação ao adotar uma tecnologia mais intensiva em energia.

Essa é apenas uma hipótese. Foi assim que realmente aconteceu? Analisar como os preços relativos diferiam entre países e como variaram ao longo do tempo pode nos ajudar a entender por que tecnologias que marcaram a Revolução Industrial foram inventadas na Grã-Bretanha, e não em outros países, e no século XVIII, e não anteriormente.

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Figura 2.10 Salários em relação ao preço da energia (início dos anos 1700)

Página 140 de Robert C. Allen. 2008. The British Industrial Revolution in Global Perspective. Cambridge: Cambridge University Press.

A Figura 2.10 mostra o preço do trabalho em relação ao preço da energia em várias cidades no início dos anos 1700. Mais especificamente, os salários dos trabalhadores do setor de construção são divididos pelo preço de 1 milhão de BTUs (em português, sigla de Unidade Térmica Britânica, unidade de energia equivalente a um pouco mais de 1.000 joules). Você pode observar que a mão de obra era mais cara em relação ao custo da energia na Inglaterra e na Holanda do que na França (Paris e Estrasburgo), e muito mais cara do que na China.

Os salários relativos ao preço da energia eram maiores na Inglaterra, tanto pelos salários lá serem em geral mais altos do que em outros lugares, como porque o carvão era mais barato na Grã-Bretanha, rica no mineral, do que nos outros países da Figura 2.10.

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Figura 2.11 Salários em relação ao custo de bens de capital (1580–1820).

Página 138 em Robert C. Allen. 2008. The British Industrial Revolution in Global Perspective. Cambridge: Cambridge University Press.

A Figura 2.11 mostra a tendência do custo do trabalho em relação ao custo de bens de capital na Inglaterra e na França, do final do século XVI até o início do século XIX. A figura apresenta os salários dos trabalhadores do setor de construção divididos pelo custo de utilizar bens de capital. Este último é calculado a partir dos preços de metal, madeira e tijolo e do custo de empréstimos, considerando-se também a que taxa os bens de capital se desgastam ou se depreciam.

Como você pode observar, os salários em relação ao custo dos bens de capital eram similares na Inglaterra e na França em meados do século XVII. A partir de então, na Inglaterra (mas não na França), a mão de obra tornou-se cada vez mais cara em relação aos bens de capital. Em outras palavras, o incentivo para substituir os trabalhadores por máquinas aumentou na Inglaterra durante aquele período, o que não ocorreu na França. Lá, o incentivo para poupar trabalho empregando inovações tecnológicas havia sido mais forte no final do século XVI do que duzentos anos depois, quando a Revolução Industrial começou a transformar a Grã-Bretanha.

Com o modelo da seção anterior, aprendemos que a tecnologia escolhida depende dos preços relativos dos insumos. Ao combinar as previsões do modelo com os dados históricos, obtemos uma explicação para o momento e a localização do surgimento da Revolução Industrial, descrita a seguir:

  • Na Inglaterra, os salários relativos ao custo de energia e de bens de capital aumentaram no século XVIII, em comparação com períodos históricos anteriores.
  • Durante o século XVIII, os salários relativos ao custo de energia e de bens de capital eram maiores na Inglaterra do que em outros países.

Sem dúvida, o fato da Grã-Bretanha ser um país tão inclinado à inovação ajudou. Havia muitos operários, engenheiros e fabricantes de máquinas com as qualificações necessárias para construir as máquinas desenvolvidas pelos inventores.

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Figura 2.12 Custo de usar diferentes tecnologias para produzir 100 metros de tecido na Grã-Bretanha (séculos XVII e XVIII).

A tecnologia no século XVII
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A tecnologia no século XVII

Os preços relativos no século XVII são representados pela linha de isocusto HJ. Utilizava-se a tecnologia B, e, a esses preços relativos, não havia incentivo para desenvolver uma tecnologia como A, que está fora da linha de isocusto HJ.

A tecnologia no século XVIII.
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A tecnologia no século XVIII.

No século XVIII, as linhas de isocusto como FG eram muito mais inclinadas porque o preço do trabalho relativo ao carvão era maior. O custo relativo era suficientemente alto para tornar a tecnologia A mais barata que a B.

Por que A é a tecnologia de menor custo?
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Por que A é a tecnologia de menor custo?

Sabemos que, quando o preço relativo do trabalho é alto, A é a tecnologia de menor custo porque a tecnologia B está fora da linha de isocusto FG.

Exercício 2.4 Na Grã-Bretanha, mas não na França

Assista nosso vídeo em que Bob Allen, historiador econômico, explica sua teoria do porquê a Revolução Industrial ter ocorrido onde e quando ocorreu.

  1. Sintetize a teoria de Allen utilizando o conceito de rendas econômicas. Quais pressupostos ceteris paribus você está considerando?
  2. Que outros fatores importantes poderiam explicar o aumento das tecnologias intensivas em energia na Grã-Bretanha durante o século XVIII?

Os preços relativos de trabalho, energia e capital podem ajudar a explicar por que as tecnologias poupadoras de mão de obra da Revolução Industrial foram adotadas primeiro na Inglaterra e qual a razão, naquela época, de difundirem-se mais rápido nesse país do que no continente europeu, e ainda mais rapidamente em comparação com a Ásia.

O que explica a adoção dessas tecnologias em países como França e Alemanha e, por fim, na China e na Índia? Uma razão é o progresso tecnológico, no qual o desenvolvimento de uma nova tecnologia leva à dominância desta sobre as existentes. Esse progresso permite utilizar quantidades cada vez menores de insumos para produzir 100 metros de tecido. Para ilustrar essa dinâmica, podemos usar nosso modelo . Na Figura 2.13, o processo tecnológico leva à invenção de uma tecnologia A’ intensiva em energia e superior à existente. A análise da Figura 2.13 mostra que, uma vez que a tecnologia A’ esteja disponível, será escolhida nos países que usam a A e, também, nos que usam a B.

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Figura 2.13 Custo de usar diferentes tecnologias para produzir 100 metros de tecido.

Intensiva em energia ou em trabalho?
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Intensiva em energia ou em trabalho?

Quando o preço relativo de trabalho é alto, adota-se a tecnologia A, intensiva em energia. Da mesma forma, quando esse preço é baixo, opta-se pela tecnologia B, intensiva em trabalho.

Avanços tecnológicos
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Avanços tecnológicos

Avanços na tecnologia de fabricação de tecidos geram uma nova tecnologia A’, que utiliza apenas metade da atual quantidade de energia por trabalhador para produzir 100 metros de tecido, dominando a tecnologia A.

A’ é a tecnologia de menor custo
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A’ é a tecnologia de menor custo

A tecnologia A’ é mais barata que A e que B, tanto em países onde os salários são relativamente altos (linha de isocusto FG), como em economias com baixos salários e e energia cara (linha de isocusto HJ). A nova tecnologia A’, poupadora de energia e de mão-de-obra, está abaixo das isocustos FG e HJ e, portanto, será adotada em ambas as economias.

Um segundo fator que promoveu a difusão de novas tecnologias em todo o mundo foi o aumento do salário e a redução dos custos de energia (devido, por exemplo, ao transporte mais barato, o que reduziu o custo de importar energia de outros países). Com isso, as linhas de isocusto tornaram-se mais acentuadas nos países pobres, o que novamente gerou um incentivo para a adoção de tecnologias poupadoras de mão de obra.12

De qualquer forma, as novas tecnologias disseminaram-se e a divergência de tecnologia e padrão de vida entre países foi sendo substituída por convergência — ao menos entre os países em que a revolução capitalista teve início.13

Em alguns outros países, entretanto, ainda observamos o uso de tecnologias que foram substituídas na Grã-Bretanha durante a Revolução Industrial. O modelo prevê que, nesses casos, o preço relativo do trabalho deve ser muito baixo, o que torna a linha de isocusto muito plana. Na Figura 2.13, a tecnologia B pode ser a escolhida até mesmo com A’ disponível se a linha de isocusto for mais plana do que HJ, passando por B mas abaixo de A’.

Questão 2.5 Selecione a(s) resposta(s) correta(s)

Observe novamente a Figure 2.12, que descreve as linhas de isocusto para os séculos XVII e XVIII na Grã-Bretanha.

Qual(is) das seguintes afirmações está(ão) correta(s)?

  • A linha de isocusto mais plana HJ para Grã-Bretanha do século XVII indica salários mais altos relativos ao preço do carvão.
  • O aumento dos salários relativos ao custo da energia no século XVIII é representado pelo deslocamento da linha de isocusto de HJ para a linha de isocusto paralela que passa por A.
  • Se o nível salarial tivesse caído com a queda dos custos de energia (devida, por exemplo, ao transporte mais barato), então a Grã-Bretanha do século XVIII teria definitivamente continuado a utilizar a tecnologia B.
  • A comparação entre a linha de isocusto FG e a isocusto paralela passando por B sugere que houve ganhos de renda de inovação na Grã-Bretanha durante o século XVIII, quando as empresas passaram da tecnologia B para a A.
  • A inclinação da linha de isocusto é a razão entre preços com sinal oposto, –(salário/preço do carvão). Uma linha de isocusto mais plana indica salários mais baixos relativos ao preço do carvão.
  • Um aumento no nível salarial relativo ao custo da energia resultaria em uma linha de isocusto mais inclinada.
  • O preço relativo é o que importa, e não o nível absoluto. Se os salários caírem relativamente menos do que os custos de energia, de modo que a razão entre os preços continue aumentando, então a tecnologia A ainda pode ser a melhor escolha.
  • A comparação entre estas duas linhas mostra que o custo de produção é menor utilizando A do que B. Portanto, empresas que adotam a tecnologia A desfrutam de lucro adicional em relação ao que receberiam escolhendo a outra alternativa — ou seja, recebem renda de inovação.

Exercício 2.5 Por que a Revolução Industrial não aconteceu na Ásia?

Leia a resposta de David Landes para essa pergunta, e este resumo de pesquisa sobre a grande divergência para discutir por que a Revolução Industrial aconteceu na Europa e não na Ásia, e precisamente na Grã-Bretanha, em vez da Europa continental.

  1. Quais argumentos você achou mais persuasivos e por quê?
  2. Quais argumentos você achou menos persuasivos e por quê?

2.7 Economia Malthusiana: produto médio decrescente do trabalho

A evidência histórica respalda nosso modelo, que utiliza preços relativos e rendas de inovação para fornecer uma explicação simples sobre o momento de início e a disseminação geográfica da revolução tecnológica permanente.14

Esta é parte da explicação do ponto de inflexão ascendente no taco de hóquei. A longa parte plana do taco, por sua vez, é outra história e demanda um modelo diferente para explicá-la.

Malthus desenvolveu um modelo da economia que descreve um padrão de desenvolvimento econômico consistente com a parte plana do taco de hóquei formado no gráfico de PIB per capita da Figura 1.1a, capítulo 1. Seu modelo introduz conceitos amplamente utilizados na economia. Um dos mais importantes é a ideia de produto médio decrescente de um fator de produção.

Produto médio decrescente do trabalho

Para entender o que este termo significa, imagine uma economia agrícola que produz apenas um bem: cereal. Suponha que a produção de cereal é muito simples, exigindo apenas mão de obra agrícola que trabalhe a terra. Em outras palavras: ignore o fato de que a produção de cereal também requer pás, colheitadeiras, elevadores de grãos, silos e outros tipos de edifícios e equipamentos.

fatores de produção
Mão de obra, máquinas e equipamentos (geralmente chamados de “capital”), terra e outros insumos de um processo produtivo.

Mão de obra e terra — e outros insumos que não iremos considerar neste caso — são fatores de produção; isto é, são insumos utilizados no processo produtivo. No modelo de mudança tecnológica visto anteriormente, os fatores de produção são energia e trabalho.

produto médio
Produto total dividido por um fator de produção específico, por exemplo, por trabalhador (dividindo o produto total pelo número de trabalhadores) ou por trabalhador por hora (dividindo o produto total pelo número total de horas de trabalho empregadas).

Utilizaremos um pressuposto ceteris paribus para simplificar ainda mais o modelo: a quantidade de terra é fixa e de mesma qualidade ao longo de toda a sua extensão. Imagine que a terra se divide em 800 fazendas cultivadas, cada uma, por apenas um agricultor. Cada agricultor trabalha a mesma quantidade total de horas durante um ano. Juntos, os 800 agricultores produzem o total de 500.000 kg de cereal. O produto médio do trabalho de um agricultor é:

Função de Produção

Descreve a relação entre o volume de produção gerado e a quantidade de insumos utilizados para gerá-lo.

função de produção
Expressão gráfica ou matemática que descreve a quantidade de produto que pode ser gerada com uma dada quantidade ou combinação de fatores de produção. A função descreve diferentes tecnologias capazes de produzir o mesmo produto.

Para entender o que acontecerá quando a população aumentar e houver mais agricultores para um mesmo espaço limitado de terra cultivável, precisamos do que os economistas chamam de função de produção da agricultura. Esta nos mostra o volume de produção gerado por dado número de agricultores trabalhando em determinada quantidade de terra. Nesse caso, consideramos constantes todos os outros insumos, inclusive a terra; então, observamos apenas como a produção varia de acordo com a quantidade de trabalho.

Nas seções anteriores, você viu funções de produção bastante simples que especificavam as quantidades de trabalho e energia necessárias para produzir 100 metros de tecido. Por exemplo, na Figura 2.3, a função de produção da tecnologia B diz que são produzidos 100 metros de tecido ao empregar 4 trabalhadores e 2 toneladas de carvão no processo produtivo. A função de produção da tecnologia A nos fornece outra afirmação do tipo “se-então”: se 1 trabalhador e 6 toneladas de carvão forem utilizados na produção com essa tecnologia, então o produto será de 100 metros de tecido. A função de produção de cereal é uma afirmação “se-então” semelhante indicando que, se X agricultores trabalharem, então Y cereal serão colhidos.

A Figura 2.14a lista alguns valores do insumo trabalho e a produção de cereal correspondente a cada um destes. Na terceira coluna, calculamos o produto médio do trabalho. Na Figura 2.14b, ilustramos a função de produção assumindo que esta relação é que seja válida para todos os valores de número de agricultores e de produção de cereal mostrados na tabela.

Leibniz: Economia malthusiana: produto médio decrescente do trabalho

A expressão é chamada de função de produção porque uma função é uma relação entre duas quantidades (de insumos e de produto, nesse caso), representada matematicamente como:

Lemos a expressão da seguinte forma: ‘Y é uma função de X’. Nesse exemplo, X é a quantidade de trabalho dedicado à agricultura e Y, a produção de cereal resultante dessa quantidade de insumo. A função f(X) descreve a relação entre X e Y, representada pela curva na figura.

Insumo Trabalho (número de trabalhadores) Produção de cereal (kg) Produto médio do trabalho (kg/trabalhador)
200 200.000 1,000
400 330.000 825
600 420.000 700
800 500.000 625
1.000 570.000 570
1.200 630.000 525
1.400 684.000 490
1.600 732.000 458
1.800 774.000 430
2.000 810.000 405
2.200 840.000 382
2.400 864.000 360
2.600 882.000 340
2.800 894.000 319
3.000 900.000 300

Figura 2.14a Valores da função de produção de um agricultor: produto médio decrescente do trabalho.

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Figura 2.14b Função de produção de um agricultor: produto médio decrescente do trabalho.

Função de produção de um agricultor
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Função de produção de um agricultor

A função de produção mostra como o número de agricultores trabalhando o solo se traduz em grãos colhidos ao final do período de cultivo.

Produto de 800 agricultores
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Produto de 800 agricultores

Na função de produção, o ponto A mostra a quantidade de cereal produzida com o trabalho de 800 agricultores.

Produto de 1.600 agricultores
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Produto de 1.600 agricultores

O ponto B, por sua vez, mostra a quantidade de cereal produzida por 1.600 agricultores.

Diminuição do produto médio
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Diminuição do produto médio

No ponto A, o produto médio do trabalho é 500.000 ÷ 800 = 625 kg de grãos por agricultor. No ponto B, o produto médio do trabalho é 732.000 ÷ 1.600 = 458 kg de grãos por agricultor.

A inclinação do raio é igual ao produto médio
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A inclinação do raio é igual ao produto médio

A inclinação do raio que vai da origem ao ponto B na função de produção mostra o produto médio do trabalho no ponto B. A inclinação é de 458, o que significa que o produto médio por agricultor é de 458 kg quando 1.600 agricultores trabalham no cultivo.

O raio A é mais inclinado que o raio B
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O raio A é mais inclinado que o raio B

O raio que chega ao ponto A é mais inclinado do que aquele que atinge o ponto B. Quando apenas 800 agricultores trabalham na produção, o produto médio do trabalho é maior. A inclinação é de 625, igual ao produto médio de 625 kg por agricultor calculado anteriormente.

Exercício 2.6 A função de produção de um agricultor

No capítulo 1, explicamos que a economia é parte da biosfera. Pense na agricultura do ponto de vista biológico.

  1. Descubra quantas calorias um agricultor consome ao trabalhar e quantas calorias 1kg de grão fornece.
  2. Podemos dizer que a agricultura produz um excedente de calorias — isto é, provê mais calorias do que as consumidas para produzir cereal — ao utilizar a função de produção da Figura 2.14b?

Nossa função de produção de cereal é hipotética, mas possui duas características consideradas pressupostos plausíveis sobre como o produto depende do número de agricultores:

A combinação de trabalho e terra é produtiva, o que não é surpreendente. Quanto mais agricultores houver, mais grãos serão produzidos, ao menos até certo ponto (neste caso, até 3.000 agricultores).

diminuição do produto médio do trabalho
Situação na qual, à medida que mais mão-de-obra é utilizada em determinado processo de produção, o produto médio do trabalho normalmente cai.

À medida que mais agricultores trabalham em uma quantidade fixa de terra, o produto médio do trabalho cai. Essa diminuição do produto médio do trabalho é um dos dois fundamentos do modelo de Malthus.

Lembre que o produto médio do trabalho é a produção total de cereal dividida pela quantidade de trabalho utilizada. Na função de produção da Figura 2.14b, ou na tabela da Figura 2.14a (ambas mostram a mesma informação), observamos que o insumo anual de 800 agricultores trabalhando no cultivo leva a um produto médio por agricultor de 625 kg de cereal; no entanto, aumentar o insumo trabalho para 1.600 agricultores gera um produto médio de 458 kg por agricultor. O produto médio do trabalho diminui à medida que mais trabalho é empregado na produção, o que preocupava Malthus.

Para entender sua preocupação, imagine que, apenas uma geração depois, cada agricultor teve muitos filhos, de modo que, se antes havia somente um agricultor trabalhando em cada fazenda, agora existem dois. O total de trabalho empregado no cultivo era de 800, mas agora é de 1.600. Em vez de obter em média 625 kg de grãos por agricultor, a colheita média passou a ser de apenas 458 kg.

Você pode argumentar que, no mundo real, conforme a população cresce, dedica-se mais terra à agricultura. No entanto, Malthus ressaltava que a terra de melhor qualidade já teria sido escolhida por gerações anteriores de agricultores, então qualquer terra incorporada ao cultivo agora seria pior , o que também reduz o produto médio do trabalho.

Portanto, a diminuição do produto médio do trabalho pode ser causada por:

  • mais mão de obra dedicada a uma quantidade fixa de terra
  • mais terra (de inferior qualidade) incorporada ao cultivo

Como o produto médio do trabalho diminui à medida que mais mão-de-obra é empregada no cultivo, a renda gerada pelo trabalho inevitavelmente cai.

Questão 2.6 Selecione a(s) resposta(s) correta(s)

Observe novamente a Figura 2.14b, que ilustra a função de produção de cereal em relação ao número de agricultores, sob condições médias de crescimento com a tecnologia disponível atualmente.

Podemos afirmar que:

  • Em um ano no qual ocorram condições climáticas excepcionalmente favoráveis, a curva da função de produção será mais elevada e paralela à curva que está acima.
  • A descoberta de sementes de alto rendimento aumentaria a inclinação da curva da função de produção, deslocando-a no sentido anti-horário em relação à origem.
  • Em um ano de seca, a curva da produção pode inclinar-se para baixo para um grande número de agricultores
  • Se há um limite superior à quantidade de cereal que pode ser produzida, então a curva terminará sendo horizontal para um grande número de agricultores.
  • Zero agricultores significa zero produto. Assim, todas as curvas devem começar na origem e não podem se alterar parelalamente para cima ou para baixo.
  • Tal descoberta aumentaria os quilogramas de grãos produzidos com qualquer número de agricultores (exceto zero); sua representação gráfica é dada por um movimento pivô no sentido anti-horário na curva de função de produção.
  • Uma curva inclinada para baixo implica a diminuição do produto à medida que o número de agricultores aumenta, o que apenas ocorreria se os trabalhadores adicionais (ingressantes recentes na atividade) exercessem efeito negativo na produtividade dos trabalhadores já existentes, possibilidade normalmente descartada.
  • Um limite superior implica que os agricultores adicionais não produziriam nenhum quilo adicional de grãos, situação em que a função de produção se torna plana ao ultrapassar o limite superior.

2.8 Economia malthusiana: a população cresce com a elevação dos padrões de vida

Por si só, o produto médio decrescente do trabalho, não explica a longa e plana parte do taco de hóquei. O conceito diz apenas que os padrões de vida dependem do tamanho da população, sem nada afirmar sobre por que, durante longos períodos, os padrões de vida e a população não variavam muito. Para entender essa questão, precisamos da outra parte do modelo de Malthus: seu argumento de que a elevação dos padrões de vida gera crescimento populacional.

Malthus não foi o primeiro a ter essa ideia. Anos antes de Malthus desenvolver suas teorias, Richard Cantillon, um economista irlandês, afirmara que “os homens reproduzem-se como ratos em um celeiro se tiverem meios ilimitados de subsistência”.

Essencialmente, a teoria malthusiana considerava as pessoas não muito diferentes dos outros animais:

Ainda que o homem se encontre acima de todos os outros animais por suas faculdades intelectuais, não se deve supor que as leis físicas às quais está sujeito devam ser essencialmente diferentes das que prevalecem sobre outras partes do reino animal.15

Então, as duas ideias centrais do modelo de Malthus são:

  • a lei do produto médio decrescente do trabalho
  • a população cresce se os padrões de vida se elevam

Imagine uma manada de antílopes em uma vasta planície deserta, onde não há predadores que compliquem suas vidas (nem nossa análise). Quando os antílopes estão bem nutridos, vivem mais e têm mais filhotes. Quando a manada é pequena, os antílopes podem comer tudo o que quiserem e, então, a manada aumenta.

A manada acabará se tornando tão grande em relação ao tamanho da planície que os antílopes não poderão mais comer tudo o que quiserem. À medida que a quantidade de terra por animal diminui, seu padrão de vida começa a deteriorar-se. A redução nos níveis de vida continuará enquanto a manada seguir aumentando de tamanho.

nível de subsistência
O nível de padrão de vida (mensurado pelo consumo ou pela renda) para o qual a população não cresce nem se reduz.

Como agora cada animal tem menos alimento para comer, os antílopes terão menos filhotes e morrerão mais jovens, o que desacelera o crescimento populacional. Por fim, os padrões de vida cairão até que a manada pare de aumentar de tamanho: nesse estágio, os antílopes ocupam toda a planície, e cada animal consome uma quantidade de comida que chamamos de nível de subsistência. Como o padrão de vida dos animais foi forçado a reduzir-se ao nível de subsistência devido ao crescimento populacional, a manada pára de crescer.

Se os antílopes comerem menos que seu nível de subsistência, a manada começa a diminuir, assim como, quando o consumo excede o nível, a manada cresce.

Boa parte dessa lógica poderia aplicar-se, raciocinou Malthus, a uma população humana vivendo em um país com uma oferta fixa de terra cultivável. Enquanto as pessoas estiverem bem alimentadas, irão se multiplicar como os ratos de Cantillon em um celeiro, até ocuparem todo o país. O maior crescimento populacional levaria à redução da renda da maioria das pessoas devido à diminuição do produto médio do trabalho. A queda dos padrões de vida, por sua vez, desaceleraria o crescimento populacional à medida que as taxas de mortalidade aumentassem, e as de natalidade, caíssem. Assim, finalmente, as rendas iriam se estabilizar no nível de subsistência.

equilíbrio
Resultado autossustentável de um modelo. Nesse caso, o objeto de interesse não muda a menos que se introduza uma força externa que altere a descrição da situação feita pelo modelo.

O modelo de Malthus resulta em um estado de equilíbrio, no qual há um nível de renda que permite apenas o nível de consumo de subsistência. As variáveis que permanecem constantes neste equilíbrio são:

  • o tamanho da população
  • o nível de renda das pessoas

Se as condições mudarem, então o tamanho da população e o nível de renda podem mudar também, mas a economia eventualmente termina retornando a um equilíbrio com renda igual ao nível de subsistência.

Exercício 2.7 As pessoas realmente são como os outros animais?

Malthus escreveu: “Não se deve supor que as leis físicas às quais (a humanidade) está sujeita devam ser essencialmente diferentes das que prevalecem sobre outras partes do reino animal.”.

Você concorda? Explique seu raciocínio.

Economia malthusiana: o efeito do progresso tecnológico

Sabemos que, nos séculos anteriores à Revolução Industrial, avanços tecnológicos surgiram em muitas regiões do mundo, inclusive na Grã-Bretanha, e, ainda assim, os padrões de vida permaneceram os mesmos. O modelo de Malthus pode explicar isso?

A Figura 2.15 ilustra como a combinação entre produto médio decrescente do trabalho e maior crescimento populacional impulsionado pelo aumento da renda implica que, a longuíssimo prazo, melhores tecnologias não resultarão em maior renda para os agricultores. Na figura, os elementos à esquerda são as causas dos à direita.

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Figura 2.15 Modelo de Malthus: o efeito do progresso tecnológico.

Ao partirmos do equilíbrio, com renda no nível de subsistência, uma nova tecnologia (uma semente de alto rendimento, por exemplo) aumenta a renda por pessoa dada a quantidade de terra existente. Os altos padrões de vida conduzem ao crescimento populacional. Conforme mais pessoas passam a dividir a mesma quantidade de terra, o produto médio do trabalho cai, levando à queda da renda média por pessoa. No final, as rendas voltarão ao nível de subsistência, e a população será mais numerosa.

Por que a população é maior no novo equilíbrio? Agora, com a nova tecnologia, o produto por trabalhador é maior para qualquer número de agricultores. A população não volta ao tamanho inicial: se voltasse, a renda seria maior que o nível de subsistência. Uma melhor tecnologia pode oferecer renda de subsistência a um maior número de pessoas.

Ao final desta seção, o Einstein mostrará como representar o modelo de Malthus graficamente e como usá-lo para investigar o efeito de uma nova tecnologia.

O modelo malthusiano prevê que avanços tecnológicos não serão capazes de elevar os padrões de vida se:

  • o produto médio do trabalho diminui à medida que mais trabalho é empregado em uma quantidade fixa de terra
  • a população cresce em resposta ao aumento do salário real

Portanto, no longo prazo, um aumento na produtividade resultará em maior população, mas não em maiores salários. Essa deprimente conclusão já foi considerada tão universal e inevitável que recebeu o nome de lei de Malthus.

Einstein Modelando Malthus

Utilizando dois diagramas, a Figura 2.16 resume o argumento de Malthus.

Na figura da esquerda, a reta decrescente mostra que, quanto maior for a população, menor será o nível dos salários, devido à diminuição do produto médio do trabalho. Na figura da direita, a reta ascendente ilustra a relação entre os salários e o crescimento populacional: quando o nível salarial é alto, a população cresce, pois padrões de vida mais elevados levam a maior número de nascimentos e menor número de mortes.

Uma economia malthusiana
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Uma economia malthusiana

Figura 2.16 Uma economia malthusiana.

Diagrama à esquerda: como os salários dependem do nível populacional
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Diagrama à esquerda: como os salários dependem do nível populacional

Em um nível populacional médio, o salário dos agricultores é igual ao nível de subsistência (ponto A). O salário é maior no ponto B porque o produto médio do trabalho é maior, uma vez que a população é menor neste ponto.

Diagrama à direita: como o crescimento populacional depende dos padrões de vida
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Diagrama à direita: como o crescimento populacional depende dos padrões de vida

No diagrama à direita, a reta ascendente mostra que, quando os salários (eixo vertical) são altos, o crescimento populacional (eixo horizontal) é positivo; então, a população aumentará. Quando os salários são baixos, o crescimento populacional é negativo; desa forma, a população diminuirá.

Conectando os dois diagramas
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Conectando os dois diagramas

No ponto A, à esquerda, a população tem tamanho médio e o salário é igual ao nível de subsistência. No diagrama ao lado, à direita, o ponto A’ mostra que, nessas condições, o crescimento populacional é igual a zero. Portanto, se a economia está no ponto A, encontra-se em equilíbrio: a população permanece constante, e os salários permanecem no nível de subsistência.

Menor população
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Menor população

Suponha que a economia está em B, com maior salário e menor população. O ponto B’, à direita, mostra que a população crescerá.

A economia retorna ao equilíbrio
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A economia retorna ao equilíbrio

No diagrama da esquerda, conforme a população cresce, a economia move-se para baixo ao longo da reta: os salários caem até atingirem o equilíbrio em A.

Juntos, os dois diagramas explicam a armadilha da população definida por Malthus. Quando o salário for igual ao nível de subsistência, a população permanecerá constante; quando for maior, a população crescerá, e quando for menor, esta diminuirá.

A Figura 2.17 mostra como o modelo malthusiano chega à conclusão de que o aumento da produtividade não conduz a padrões de vida mais elevados no longo prazo.

A Introdução de uma nova tecnologia em uma economia malthusiana
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A Introdução de uma nova tecnologia em uma economia malthusiana

Figura 2.17 A introdução de uma nova tecnologia em uma economia malthusiana.

No início, a economia está em equilíbrio
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No início, a economia está em equilíbrio

A trajetória dessa economia inicia-se no ponto A, com população de tamanho médio e salário no nível de subsistência.

Progresso tecnológico: aumentam os salários
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Progresso tecnológico: aumentam os salários

Uma inovação tecnológica (por exemplo, sementes aperfeiçoadas) leva ao aumento do produto médio do trabalho e a salários mais altos, seja qual for o tamanho da população. A reta de salário real desloca-se para cima. No nível inicial da população, o salário aumenta, e a economia move-se para o ponto D.

A população começa a crescer
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A população começa a crescer

No ponto D, o salário ultrapassou o nível de subsistência e, assim, a população começa a crescer (ponto D’).

Crescimento populacional
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Crescimento populacional

Conforme a população cresce, o salário diminui devido à redução do produto médio do trabalho. A partir do ponto D, a economia desloca-se para baixo ao longo da reta de salário real.

C é o equilíbrio sob a nova tecnologia
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C é o equilíbrio sob a nova tecnologia

Em C, o salário atingiu novamente o nível de subsistênciae a população permanece constante (ponto C’). O nível populacional é maior no equilíbrio C do que era no equilíbrio A.

Exercício 2.8 Padrões de vida no mundo malthusiano

Imagine que a curva de crescimento populacional, à direita da Figura 2.16, se deslocou para a esquerda (isto é, há menos nascimentos ou mais mortes a qualquer nível salarial). Explique o que aconteceria com os padrões de vida, descrevendo a transição para o novo equilíbrio.

2.9 A armadilha malthusiana e a estagnação econômica a longo prazo

A longo prazo, o mais importante impacto do avanço tecnológico sobre o mundo malthusiano foi o aumento populacional. Em 1905, o escritor W.G. Wells, autor de A Guerra dos Mundos, escreveu que, “tão rapidamente quanto os obteve, a humanidade desperdiçou os grandes dons da ciência na mera multiplicação insensata da vida comum”.

Agora, portanto, temos uma possível explicação para a parte longa e plana do taco de hóquei. De tempos em tempos, os seres humanos inventaram melhores maneiras de fazer as coisas, tanto na agricultura como na indústria, o que elevava periodicamente as rendas de agricultores e trabalhadores para além do nível de subsistência. A interpretação malthusiana afirma que salários reais mais altos levavam casais jovens a casarem-se mais cedo e terem mais filhos, e também levavam a menores taxas de mortalidade. O crescimento populacional resultante acabava por forçar os salários reais a voltarem aos níveis de subsistência — o que poderia explicar por que China e Índia, economias relativamente sofisticadas no passado, se tornaram nações muito populosas mas, até recentemente, com rendas muito baixas.

Assim como fizemos com nosso modelo de rendas de inovação, preços relativos e melhores tecnologias, temos de perguntar: é possível encontrar evidências que corroborem a principal conclusão do modelo malthusiano (a ideia de que as rendas retornarão ao nível de subsistência?)

A Figura 2.18 está de acordo com o que Malthus afirmava. Do final do século XIII ao início do século XVII, a Grã-Bretanha oscilou entre períodos de salários altos, que geravam aumento da população, e períodos subsequentes de salários menores, que reduziam a população, seguidos então por períodos de aumento nos salários… e assim por diante, em um círculo vicioso.

Temos uma visão diferente desse círculo ao tomarmos a Figura 2.18 e nos concentrarmos no período 1340–1600, exibido com mais detalhes na Figura 2.19. O surto de peste bubônica, conhecida como Peste Negra, causou a morte de um quarto a um terço da população da Europa entre 1349 e 1351. O diagrama abaixo da figura mostra a sucessão de eventos que levaram aos resultados mostrados na parte superior.

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Figura 2.18 A armadilha malthusiana: salários e população (1280–1600)

Robert C. Allen. 2001. ‘The Great Divergence in European Wages and Prices from the Middle Ages to the First World War’. Explorations in Economic History 38 (4): pp. 411–447.

A economia malthusiana na Inglaterra
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A economia malthusiana na Inglaterra
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A economia malthusiana na Inglaterra

Figura 2.19 Peste Negra, oferta de trabalho, política e salários: uma economia malthusiana.

Robert C. Allen. 2001. ‘The Great Divergence in European Wages and Prices from the Middle Ages to the First World War’. Explorations in Economic History 38 (4): pp. 411–447.

A economia malthusiana na Inglaterra (1300–1600)
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A economia malthusiana na Inglaterra (1300–1600)
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A economia malthusiana na Inglaterra (1300–1600)

Nesta figura, examinamos a economia malthusiana que caracterizava a Inglaterra 1300 e 1600, destacados acima.

Robert C. Allen. 2001. ‘The Great Divergence in European Wages and Prices from the Middle Ages to the First World War’. Explorations in Economic History 38 (4): pp. 411–447.

A Peste Negra (1348–1350)
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A Peste Negra (1348–1350)
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A Peste Negra (1348–1350)

A peste bubônica de 1348–50, também conhecida como Peste Negra, matou 1,5 milhões de pessoas de uma população estimada em 4 milhões de ingleses, o que provocou uma queda drástica da oferta de trabalho.

Robert C. Allen. 2001. ‘The Great Divergence in European Wages and Prices from the Middle Ages to the First World War’. Explorations in Economic History 38 (4): pp. 411–447.

Os salários aumentaram após a Peste
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Os salários aumentaram após a Peste
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Os salários aumentaram após a Peste

A redução da população gerou um benefício econômico para os agricultores e trabalhadores que sobreviveram: os agricultores ganharam acesso a mais e melhores terras, e os trabalhadores puderam exigir maiores salários. Os rendimentos foram aumentando à medida que a praga diminuía.

Robert C. Allen. 2001. ‘The Great Divergence in European Wages and Prices from the Middle Ages to the First World War’. Explorations in Economic History 38 (4): pp. 411–447.

Agricultores e trabalhadores usaram seu poder
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Agricultores e trabalhadores usaram seu poder
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Agricultores e trabalhadores usaram seu poder

Em 1351, o rei Eduardo III da Inglaterra tentou limitar os aumentos salariais por lei, o que desencadeou um período de rebeliões contra sua autoridade; notavelmente, a Revolta Camponesa de 1381. Apesar das ações do rei, os rendimentos continuaram aumentando.

Robert C. Allen. 2001. ‘The Great Divergence in European Wages and Prices from the Middle Ages to the First World War’. Explorations in Economic History 38 (4): pp. 411–447.

A população cresceu no século XVI
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A população cresceu no século XVI
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A população cresceu no século XVI

Em meados do século XV, os salários reais dos trabalhadores do setor de construção haviam dobrado na Inglaterra. Os salários mais altos ajudaram a população a recuperar-se no século XVI, mas a lei de Malthus fez-se valer: à medida que a população crescia, os rendimentos foram caindo.

Robert C. Allen. 2001. ‘The Great Divergence in European Wages and Prices from the Middle Ages to the First World War’. Explorations in Economic History 38 (4): pp. 411–447.

Estagnação malthusiana (1350–1600)
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Estagnação malthusiana (1350–1600)
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Estagnação malthusiana (1350–1600)

Por volta de 1600, os salários reais haviam se reduzido ao nível em que estavam trezentos anos antes.

Robert C. Allen. 2001. ‘The Great Divergence in European Wages and Prices from the Middle Ages to the First World War’. Explorations in Economic History 38 (4): pp. 411–447.

Causa e efeito na economia malthusiana
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Causa e efeito na economia malthusiana
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Causa e efeito na economia malthusiana

Nosso modelo de economia malthusiana ajuda a explicar o aumento e a redução da renda na Inglaterra entre 1300 e 1600.

Robert C. Allen. 2001. ‘The Great Divergence in European Wages and Prices from the Middle Ages to the First World War’. Explorations in Economic History 38 (4): pp. 411–447.

A redução do número de trabalhadores na agricultura durante a Peste Negra aumentou a produtividade agrícola, em conformidade com o princípio do produto médio decrescente do trabalho. Os agricultores estavam em melhor situação, fossem eles proprietários de suas terras ou arrendatários, pagando um aluguel fixo a um senhorio. Nas cidades, os empregadores também tiveram de oferecer salários mais altos para atrair trabalhadores das áreas rurais.

As relações causais mostradas pela Figura 2.19 unem duas características do modelo malthusiano ao papel das decisões políticas na resposta e no impulso a mudanças na economia. Em 1349 e 1351, quando o rei Eduardo III aprovou leis que visavam restringir os aumentos salariais, a economia venceu a política (devido à reduzida oferta de trabalho): os salários continuaram a aumentar, e os camponeses começaram a exercer o poder que vinham adquirindo ao exigirem mais liberdades e menores impostos, como notavelmente ocorreu na Revolta Camponesa de 1381.

No entanto, quando os níveis de população se recuperaram no século XVI, a oferta de trabalho aumentou, o que reduziu os salários. Com base nessa evidência, conclui-se que a explicação malthusiana é coerente com a história da Inglaterra na época.

Exercício 2.9 O que você adicionaria?

O diagrama de causa e efeito que criamos na Figura 2.19 utilizou várias suposições ceteris paribus.

  1. Como esse modelo simplifica a realidade?
  2. O que foi excluído?
  3. Tente redesenhar a figura para incluir outros fatores que você considera importantes.

Questão 2.7 Selecione a(s) resposta(s) correta(s)

Observe novamente a Figura 2.1 e a Figura 2.19, que mostram gráficos de salários reais na Inglaterra entre 1300 e 2000.

Além disso, considere os seguintes fatos:

Durante a peste bubônica ocorrida entre 1348 e 1351, entre um quarto e um terço da população europeia morreu.

Nos séculos XVII e XVIII, os salários dos trabalhadores não qualificados, em relação aos rendimentos dos proprietários de terra, eram apenas um quinto do que haviam sido no século XVI.

A partir dessas informações, o que podemos concluir?

  • De acordo com o modelo malthusiano, a redução da população devido à peste bubônica teria levado ao aumento da produtividade média dos trabalhadores, o que causou o aumento do salário real observado após a peste.
  • A trajetória de duplicação e redução pela metade percorrida pelo índice de salário real ao longo de 250 anos, a partir de 1350, contradiz o modelo malthusiano.
  • Nos séculos XVII e XVIII, a queda da participação dos trabalhadores não qualificados na produção total ocorreu devido à diminuição do produto médio de seu trabalho.
  • Nos séculos XVII e XVIII, a queda nos salários relativos dos trabalhadores não qualificados foi um dos fatores que levou à eventual disparada do salário real no século XIX, vista no gráfico.
  • No modelo malthusiano, menor contingente de trabalhadores significa maior produtividade média, o que aumenta a produção per capita. O poder de barganha dos trabalhadores não se manteve o mesmo, mas aumentou, o que permitiu a reivindicação de maior parcela do produto e o aumento do salário real.
  • Segundo o modelo malthusiano, o crescimento da população, causado pelo aumento nos salários reais, leva à diminuição da produtividade média, o que resulta na eventual queda do salário real ao nível de subsistência. Esse processo parece ser observado no gráfico.
  • O produto médio do trabalho determina o tamanho do “bolo”— isto é, da produção total. No entanto, a fatia pertencente aos trabalhadores é determinada por seu poder de barganha, decrescente ao longo dos ciclos malthusianos exibidos no gráfico.
  • Pelo contrário: ocorreu aumento salarial apesar dos baixos salários relativos às rendas dos proprietários de terra. A chave desse processo foi o fato de que os salários permaneceram altos em comparação com os preços de energia e de bens de capital, o que resultou em inovações tecnológicas menos intensivas em trabalho.

Exercício 2.10 Definindo o que é progresso econômico

Após a Peste Negra, os salários reais também aumentaram significativamente em outros países de que se tem evidência, como Espanha, Itália, Egito, os Balcãs e Constantinopla (atualmente Istambul).16

  1. Como o aumento dos salários reais se compara ao aumento do PIB per capita real enquanto medida do progresso econômico?
  2. Compare seus argumentos com os de outras pessoas. Vocês estão de acordo ou não? Se não, há algum fato que, se considerado, poderia levá-los a concordar? Qual? Se não houver, por que a discordância se sustenta?

Temos nos concentrado em agricultores e assalariados, mas nem todos na economia se veriam presos na armadilha malthusiana. Conforme a população continua a crescer, a demanda por comida também cresce, de modo que a quantidade de terra disponível para a produção de alimentos deveria tornar-se cada vez mais valiosa. Portanto, em um mundo malthusiano, o crescimento populacional deveria levar a uma elevação relativa na posição econômica dos proprietários de terra.

Foi o que aconteceu na Inglaterra: a Figura 2.19 mostra que os salários reais não aumentaram no longuíssimo prazo (isto é, não eram maiores em 1800 do que em 1450). E a diferença de renda entre proprietários de terras e trabalhadores cresceu. Nos séculos XVII e XVIII, os salários dos trabalhadores ingleses não qualificados, em relação à renda dos proprietários de terras, representavam apenas um quinto do que eram no século XVI.

Ainda que os salários fossem baixos se comparados às rendas dos proprietários, outra comparação de preços relativos foi a chave para a Inglaterra ter escapado da armadilha malthusiana: os salários permaneceram altos em relação aos preços do carvão (Figura 2.10) e até mesmo aumentaram em relação ao custo de utilizar bens de capital (Figura 2.11), como vimos anteriormente.

2.10 Escapando da armadilha malthusiana

Nassau Senior, o economista que lamentou pelo número de mortes durante a fome irlandesa não ser suficiente para gerar algum benefício, não denota compaixão. Porém, Malthus e ele estavam certos em crer que o crescimento populacional e o produto médio decrescente do trabalho poderiam criar um círculo vicioso de estagnação econômica e pobreza. Entretanto, os gráficos de padrão de vida em formato de taco de hóquei mostram que os dois estavam errados em acreditar que essa situação nunca mudaria.

Malthus e Senior não consideravam a possibilidade de que o progresso tecnológico pudesse ocorrer a uma velocidade superior à do crescimento populacional, compensando a diminuição do produto médio do trabalho.

Na prática, a revolução tecnológica permanente implica que o modelo malthusiano não é mais uma descrição razoável do mundo. Os padrões médios de vida elevaram-se rápida e permanentemente após a revolução capitalista.

A Figura 2.20 mostra os dados de salário real e população entre 1280 e 1860. Como vimos na Figura 2.18, do século XIII ao XVI, houve clara relação negativa entre população e salários reais: quando um aumentava, o outro diminuía, como sugere a teoria malthusiana.

Entre o final do século XVI e o início do século XVIII, havia relativamente pouco crescimento populacional até mesmo com os salários aumentando. Por volta de 1740, podemos ver novamente a relação malthusiana, identificada no gráfico como século XVIII. A seguir, por volta de 1800, a economia caminhou para o que parecia ser um regime inteiramente novo, com crescimento simultâneo da população e dos salários reais, como mostra a região denominada fuga na figura.

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Figura 2.20 Fugindo da armadilha malthusiana

Robert C. Allen. 2001. The Great Divergence in European Wages and Prices from the Middle Ages to the First World War. Explorations in Economic History 38 (4): pp. 411–447.

A Figura 2.21 amplia a região da “grande fuga” no gráfico de dados salariais.

Escapando da armadilha malthusiana
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Escapando da armadilha malthusiana
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Escapando da armadilha malthusiana

Figura 2.21 Escapando da armadilha malthusiana. Nota: A produtividade do trabalho e os salários reais são médias móveis centradas de cinco anos.

Robert C. Allen. 2001. ‘The Great Divergence in European Wages and Prices from the Middle Ages to the First World War’. Explorations in Economic History 38 (4): pp. 411–447.

Fugindo da armadilha malthusiana
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Fugindo da armadilha malthusiana
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Fugindo da armadilha malthusiana

No século XVIII, a relação malthusiana persistia. No século XIX, a economia parece ter deixado de ser um regime malthusiano, uma vez que os salários aumentam enquanto a população cresce.

Robert C. Allen. 2001. ‘The Great Divergence in European Wages and Prices from the Middle Ages to the First World War’. Explorations in Economic History 38 (4): pp. 411–447.

A revolução tecnológica permanente
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A revolução tecnológica permanente
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A revolução tecnológica permanente

A história da fuga começa com inovações tecnológicas, como a spinning Jenny e o motor a vapor, que aumentaram o produto por trabalhador. A inovação continuou à medida que a revolução tecnológica se tornava permanente, ao substituir milhares de fiandeiras, tecelões e agricultores

Robert C. Allen. 2001. ‘The Great Divergence in European Wages and Prices from the Middle Ages to the First World War’. Explorations in Economic History 38 (4): pp. 411–447.

Desemprego urbano
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Desemprego urbano
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Desemprego urbano

A perda dos empregos reduziu o poder de barganha dos trabalhadores, o que manteve os salários baixos entre 1750 e 1830 na porção plana do gráfico. O tamanho do bolo crescia, mas não a fatia dos trabalhadores.

Robert C. Allen. 2001. ‘The Great Divergence in European Wages and Prices from the Middle Ages to the First World War’. Explorations in Economic History 38 (4): pp. 411–447.

Novas oportunidades
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Novas oportunidades
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Novas oportunidades

Na década de 1830, maior produtividade e baixos salários levaram a um aumento nos lucros. Os lucros, a concorrência e a tecnologia impulsionaram a expansão dos negócios. A demanda por mão de obra aumentou, de modo que as pessoas deixavam a agricultura para trabalhar nas novas fábricas.

Robert C. Allen. 2001. ‘The Great Divergence in European Wages and Prices from the Middle Ages to the First World War’. Explorations in Economic History 38 (4): pp. 411–447.

O poder de barganha dos trabalhadores
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O poder de barganha dos trabalhadores
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O poder de barganha dos trabalhadores

A oferta de trabalho reduziu-se quando os empresários foram impedidos de contratar crianças. A combinação de maior demanda por mão-de-obra e menor oferta aumentou o poder de barganha dos trabalhadores.

Robert C. Allen. 2001. ‘The Great Divergence in European Wages and Prices from the Middle Ages to the First World War’. Explorations in Economic History 38 (4): pp. 411–447.

A fuga do malthusianismo
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A fuga do malthusianismo
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A fuga do malthusianismo

O poder dos trabalhadores aumentou com a expansão do direito ao voto e a formação de sindicatos. Assim, foi possível reivindicar uma parcela constante ou crescente dos aumentos de produtividade gerados pela revolução tecnológica permanente.

Robert C. Allen. 2001. ‘The Great Divergence in European Wages and Prices from the Middle Ages to the First World War’. Explorations in Economic History 38 (4): pp. 411–447.

A história da revolução tecnológica permanente demonstra que dois fatores influenciam os salários:

  • O quanto é produzido: podemos imaginá-lo como o tamanho do bolo a ser dividido entre trabalhadores e proprietários de outros insumos (terra ou maquinário).
  • A fatia destinada aos trabalhadores: depende do poder de barganha dos trabalhadores, o que, por sua vez, depende de como os salários são determinados (se individualmente, ou por meio de negociações com sindicatos, por exemplo) e da oferta e demanda por trabalhadores. Se muitos competem pelo mesmo emprego, os salários provavelmente serão baixos.

Depois de 1830, o bolo continuou a crescer e com este, a fatia dos trabalhadores também.

A Grã-Bretanha escapara da armadilha malthusiana, processo que logo se repetiria em em outros países, como mostram as Figuras 1.1a e 1.1b.

Questão 2.8 Selecione a(s) resposta(s) correta(s)

Confira novamente a Figura 2.20, que exibe os salários reais versus a população na Inglaterra de 1280 até 1860.

Segundo Malthus, o produto médio decrescente do trabalho e o crescimento populacional decorrente de aumentos nos salários reais são responsáveis pelo fato de que um aumento da produtividade acarretará maior população, mas não em maiores salários a longo prazo. Qual(is) das alternativas está(ão) correta(s)?

  • Entre as décadas de 1800 e 1860, a população crescia conforme aumentavam os salários reais, o que condiz totalmente com a descrição do crescimento econômico feita por Malthus.
  • Há evidências claras de que as décadas de 1280 a 1800 experimentaram uma persistente e contínua armadilha malthusiana.
  • As armadilhas malthusianas parecem ocorrer em ciclos de sessenta anos.
  • O modelo de Malthus não leva em consideração a possibilidade de ocorrer um choque tecnológico positivo e persistente, capaz de compensar a diminuição do produto médio do trabalho.
  • De fato, Malthus assume que a população cresce em resposta ao aumento do salário real. No entanto, à medida que a população aumenta, o produto médio per capita cai, o que reduz os salários reais ao nível de subsistência. Não há evidência disso no gráfico após a década de 1800.
  • Na verdade, há dois períodos em que a armadilha malthusiana é evidente: entre 1280 e 1590 e entre 1740 e 1800. Há, contudo, o período entre estes quando a relação negativa entre o salário real e a população parece falhar (até mesmo com os salários aumentando, não há crescimento populacional).
  • Embora o segundo ciclo da armadilha malthusiana tenha durado cerca de sessenta anos (entre 1740 e 1800), o primeiro ciclo parece ter durado cerca de trezentos anos.
  • Se o progresso tecnológico aumenta a produtividade média do trabalho mais rapidamente do que o crescimento populacional a reduz, então os salários reais e podem coexistir com o aumento da população. É o que demonstra a trajetória de fuga da armadilha malthusiana percorrida pela Inglaterra após o século XVIII.

Exercício 2.11 Instituições fundamentais do capitalismo

A fuga da armadilha malthusiana, ocorrida quando o progresso tecnológico ultrapassou os efeitos do crescimento populacional, deu-se após o surgimento do capitalismo. Considere então as três instituições fundamentais do capitalismo:

  1. Por que a propriedade privada é importante para que o progresso tecnológico ocorra?
  2. Explique como os mercados podem determinar punições e recompensas que promovam a inovação.
  3. Como a produção em firmas e empresas, e não mais a familiar ou doméstica, pode contribuir para a elevação dos padrões de vida?

2.11 Conclusão

Apresentamos um modelo econômico no qual a escolha de determinada tecnologia de produção por parte das empresas depende dos preços relativos dos insumos, e no qual a renda econômica obtida ao adotar uma nova tecnologia incentiva as empresas a inovarem. Ao compararmos o modelo com as evidências históricas disponíveis, vimos que este poderia ajudar a explicar por que a Revolução Industrial ocorreu na Grã-Bretanha no século XVIII.

Mostramos como o modelo de Malthus, no qual um vicioso círculo de crescimento populacional neutraliza ganhos temporários de renda, poderia explicar a estagnação dos padrões de vida durante os séculos anteriores à Revolução Industrial, quando enfim a revolução tecnológica permanente permitiu a fuga da armadilha malthusiana por meio do progresso tecnológico.

Conceitos introduzidos no Capítulo 2

Antes de continuar, revise as seguintes definições:

2.12 Referências

  • Allen, Robert C. 2009. ‘The Industrial Revolution in Miniature: The Spinning Jenny in Britain, France, and India’. The Journal of Economic History 69 (04) (November): p. 901.
  • Allen, Robert C. 2011. Global Economic History: A Very Short Introduction. New York, NY: Oxford University Press.
  • Clark, Gregory. 2007. A Farewell to Alms: A Brief Economic History of the World. Princeton, NJ: Princeton University Press.
  • Davis, Mike. 2000. Late Victorian holocausts: El Niño famines and the Making of the Third World. London: Verso Books.
  • Landes, David S. 1990. ‘Why are We So Rich and They So Poor?’. American Economic Review 80 (May): pp. 1–13.
  • Landes, David S. 2003. The Unbound Prometheus: Technological Change and Industrial Development in Western Europe from 1750 to the Present. Cambridge, UK: Cambridge University Press.
  • Landes, David S. 2006. ‘Why Europe and the West? Why not China?’. Journal of Economic Perspectives 20 (2) (June): pp. 3–22.
  • Lee, James, and Wang Feng. 1999. ‘Malthusian models and Chinese realities: The Chinese demographic system 1700–2000’. Population and Development Review 25 (1) (March): pp. 33–65.
  • Malthus, Thomas R. 1798. An Essay on the Principle of Population. London: J. Johnson, in St. Paul’s Church-yard. Library of Economics and Liberty.
  • Malthus, Thomas R. 1830. A Summary View on the Principle of Population. London: J. Murray
  • McNeill, William Hardy H. 1976. Plagues and Peoples. Garden City, NY: Anchor Press.
  • Mokyr, Joel. 2004. The Gifts of Athena: Historical Origins of the Knowledge Economy, 5th ed. Princeton, NJ: Princeton University Press.
  • Pomeranz, Kenneth L. 2000. The Great Divergence: Europe, China, and the Making of the Modern World Economy. Princeton, NJ: Princeton University Press.
  • Schumpeter, Joseph A. 1949. ‘Science and Ideology’. The American Economic Review 39 (March): pp. 345–59.
  • Schumpeter, Joseph A. 1962. Capitalism, Socialism, and Democracy. New York: Harper & Brothers.
  • Schumpeter, Joseph A. 1997. Ten Great Economists. London: Routledge.
  • Skidelsky, Robert. 2012. ‘Robert Skidelsky—portrait: Joseph Schumpeter’. Updated 1 December 2007.
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  2. Mike Davis. 2000. Late Victorian holocausts: El Niño famines and the making of the Third world. London: Verso Books. 

  3. Robert C. Allen. 2011. Global Economic History: A Very Short Introduction. New York, NY: Oxford University Press. 

  4. Joel Mokyr. 2004. The gifts of Athena: Historical origins of the knowledge economy, 5th ed. Princeton, NJ: Princeton University Press. 

  5. David S. Landes. 2006. ‘Why Europe and the west? Why not China?’ Journal of Economic Perspectives 20 (2) (June): pp. 3–22. 

  6. Gregory Clark. 2007. A farewell to alms: A brief economic history of the world. Princeton, NJ: Princeton University Press. 

  7. Kenneth L. Pomeranz. 2000. The great divergence: Europe, China, and the making of the modern world economy. Princeton, NJ: Princeton University Press. 

  8. David S. Landes. 1990. ‘Why are We So Rich and They So Poor?’. The American Economic Review 80 (May): pp. 1–13. 

  9. Joseph A. Schumpeter. 1949. ‘Science and Ideology’. The American Economic Review 39 (March): pp. 345–359. 

  10. Joseph A. Schumpeter. 1997. Ten Great Economists. London: Routledge. 

  11. Joseph A. Schumpeter. 1962. Capitalism, Socialism, and Democracy. New York: Harper & Brothers. 

  12. Robert C. Allen. 2009. ‘The industrial revolution in miniature: The spinning Jenny in Britain, France, and India’. The Journal of Economic History 69 (04) (November): p. 901. 

  13. David S. Landes. 2003. The unbound Prometheus: Technological change and industrial development in western Europe from 1750 to the present. Cambridge, UK: Cambridge University Press. 

  14. O historiador econômico Gregory Clark argumenta que todas as regiões do planeta eram malthusianas do período pré-histórico até o século XVIII. Gregory Clark. 2007. A farewell to alms: A brief economic history of the world. Princeton, NJ: Princeton University Press. James Lee e Wang Feng discutem as diferenças entre os sistemas demográficos chinês e europeu, e questionam a hipótese malthusiana de que a pobreza chinesa decorria de seu crescimento populacional. James Lee e Wang Feng. 1999. ‘Malthusian models and Chinese realities: The Chinese demographic system 1700–2000’. Population and Development Review 25 (1) (March): pp. 33–65. 

  15. Thomas Robert Malthus, 1830. A Summary View on the Principle of Population. London: J. Murray. 

  16. William H. McNeill. 1976. Plagues and peoples. Garden City, NY: Anchor Press.